Uma Era diferente

22.Mi.2007 @ 6:02 pm
Arquivado em Literatura

Eu comecei a ler cedo. Devia ter uns 4 ou 5 anos. Sei que já entrei na escola sabendo ler. E eu lia bastante, levando em conta que era uma criança de 4 ou 5 anos. Eu lia tanto os livros infantis da escola em que minha mãe trabalhava como as HQs Disney que ela comprava para mim.

Aliado à influência materna, um tio meu colecionava HQs fazia muitos anos. Naquela época, já fazia mais de 10 anos, com certeza. Ele tinha uma respeitável coleção das revistas DC lançadas pela EBAL durante a década de 70. Talvez por isto os heróis da DC sejam meus favoritos até hoje.

Por ter começado a ler com as histórias de super-heróis das décadas de 60 e 70, eu acabei dando mais valor às histórias bem contadas, onde a arte nem sempre é a parte principal. Sim, havia bons desenhistas naquelas revistas, mas nenhum Alex Ross, Jim Lee ou Todd McFarlane. Até onde minha memória alcança, a arte era mais simples do que hoje em dia. O principal era uma história bem contada. Entendam que para mim, naquela época, história bem contada significava que o super-vilão do mês chegava, colocava a cidade em apuros e o super-herói solucionava o problema. Era assim todo mês, em todas as revistas.

Eu adorava. Ainda adoro, na verdade. Apesar de hoje em dia comprar apenas mangás e revistas do selo Vertigo, na minha cabeça eu ainda gosto daquelas velhas histórias das Eras de Ouro(1) e Prata(2). Ainda acho muito interessante o conceito do super-herói bonzinho, que se sacrifica para salvar o mundo.

Por tudo isso não sei como o lançamento de DC: A Nova Fronteira, minissérie em duas edições lançada entre julho e agosto de 2006 pela Panini, passou despercebido por mim. A edição é um espetáculo. Não só pelo excelente roteiro de Darwyn Cooke, mas também por seus fabulosos desenhos, que me levaram de volta àquele tempo. Claro que eu não vivi o final dos anos 50, quando a maior parte da ação se passa. A história me levou de volta ao mundo que eu idealizava enquanto lia as antigas revistas do meu tio. Um passado mais simples, onde era fácil saber quem era bom (americano) e quem era ruim (soviético).

Mesmo correndo um risco por não ter o distanciamento histórico mínimo para fazer uma colocação destas, afirmo que DC: A Nova Fronteira é a melhor HQ que li (e talvez lerei) neste ano. Tem romance, ação, conspiração, amizade, mistério e todos os elementos que fazem um grande épico. São mais de 400 páginas de uma volta àquele tempo em que eu era inocente e tudo era mais simples, mas sem pieguice, sem forçação. É só uma história bem contada, passada em outra época. Sem preocupações malucas com cronologia, extermínio de mundos, universos paralelos.

Apenas uma história do tempo em que ser herói era para poucos.

(1)A Era de Ouro refere-se ao primeiro apogeu das histórias de super-heróis. Podemos datar seu início com o surgimento do Super-Homem, em 1938, e seu final em meados dos anos 50, com a publicação de Seduction of the Innocent, livro que propunha a tese de que histórias em quadrinhos desvirtuavam jovens inocentes.
(2)A Era de Prata refere-se ao segundo apogeu das histórias de super-heróis. Podemos considerar o lançamento de Showcase 4, a primeira aparição de Barry Allen como Flash, como marco inicial desta era. Para mim, ela terminou com a morte de Gwen Stacy em 1973, na história em que os quadrinhos de super-heróis perderam a inocência.

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9 Comentários

  1. tina oiticica harris

    Ó eu aí! Gostava do Superman e família ( fim dos anos 50- início anos 60.) Havia quadrinhos de filmes, como o Cérebro Malvado dentro de um jarro; francês.) E tinha quadrinhos de contos do Poe. Lía escondida , no jornaleiro em frente do prédio. Depois entramos na fase Tio Patinhas e cia. Minha irmã e eu.
    Li às escondidas “Giselle, a espiã nua que abalou Paris.” Era romancinho com desenhos do Carlos Zéfiro.

    Aos dois anos de idade comecei a apontar para a letra H. Dizia que era a letra de Daddy. A vizinha revirou os olhos. Não sabia que o nome do meu pai começava com H. Sinto tanta pena que meu guri não se interesse por leitura. Qualquer um que não lê não pode imaginar como está perdendo.

    Comentado em 22.Mi.2007

  2. Fabricio

    Teu conceito de bom desenhista é bem diferente do meu. Até gostava do Alex Ross, mas meio que ficou repetitivo. As histórias deles são sempre iguais.

    Comentado em 22.Mi.2007

  3. marcus

    Mas não há como negar que Marvels e O Reino do Amanhã são excelentes. Sim, obras de 10 anos atrás, mas são o grande trabalho dele, junto com aqueles especiais em formatão da DC.

    Ele tem lançado álbuns regulares? Achei que ultimamente ele só fazia capas.

    Comentado em 22.Mi.2007

  4. trixie

    os quadrinhos americanos são todos mal-desenhados. diagramação pobre, essa merda de traço quadrado e estrutura muscular maior do que o normal que transforma as mulheres em homens. todas uns travecões. e não sou muito fã da arte-final também.
    ok, critico só porque nunca li super-heróis quando criança, talvez gostasse mais deles se tivessem me acompanhado. turma da mônica completou o espaço, para bem ou para mal. hm, minto, eu lia spawn, mas aí é é toda uma coisa anti-herói going on.

    Comentado em 23.Mi.2007

  5. marcus

    Hum… Spawn pode ser assim, mas há histórias muito bem desenhadas. Uma que me vem à cabeça agora é a última série do Homem-Borracha, que tinha um traço bem original e era bastante engraçada.

    Comentado em 23.Mi.2007

  6. Fabricio

    O último trabalho dele, que eu saiba, foi Justiça, que por sinal está sendo publicado agora pela Panini.

    Comentado em 23.Mi.2007

  7. trixie

    não é só spawn que é assim, vai.

    Comentado em 23.Mi.2007

  8. marcus

    Acho que esta coisa de tu achar que os trabalhos dele são todos iguais vem do fato de ele gostar de trabalhar com coisas épicas, com os ícones das editoras. Eu não vejo o Alex Ross desenhando algo como Sandman ou Hellblazer, por exemplo. Ele parece ser o cara para fazer as “versões definitivas” dos heróis.

    Mas e aí? Tu também leu A Nova Fronteira?

    Comentado em 23.Mi.2007

  9. Fabricio

    Sinceramente não li. Mas deve ser muito boa. Gosto do Darwyn Cooke desde que ele escreveu uma história do Wolverine com o Doop (que é um bicho verde que fala esquisito), que era ótima. Mas boa mesmo.

    Comentado em 23.Mi.2007

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