Top 5 Piores Começos de Romances Fictícios

O texto abaixo foi enviado pelo Roberto Almeida, do FORA DE ÓRBITA.

Era uma noite escura e tempestuosa; a chuva caia torrencialmente – exceto pelos intervalos ocasionais, quando era parada por violentas rajadas de vento que limpavam as ruas…

Não é difícil reconhecer o trecho acima. É o tipíco lugar comum – similar a “era uma vez…” e “todos viveram felizes para sempre” – que imediatamente provoca a nossa memória. Proust diria, quando da leitura deste pequeno trecho, que estamos diante de um ritornelo existencial que funciona como lugar catalítico de subjetivação. Eu, como não sou tão sofisticado e não tenho interesses em madeleines ou psicanálise, diria que estamos diante de um dos piores começos de romance da história da humanidade.

A frase é de autoria do Edward George Earl Bulwer-Lytton, escritor e político inglês, autor de Os últimos dias de Pompéia (que eu não li e não lerei) e Paul Clifford (de onde a célebre frase foi extraída, mas não se engane, também não li). Hoje em dia, o nome do Primeiro Barão Lytton é dado ao concurso de piores começos de romances fictícios promovido pela San José State University.

Escolhi os que, na minha opinião, são os 5 melhores piores começos de romances fictícios da história.

Começaremos com uma história de amor, escrita por Jeanne Villa.

5) Bill jurava que seu caso tinha terminado, mas Louise sabia que ele estava mentindo após encontrar vários tupperwares debaixo do assento do seu carro, que não eram os potes sem marca que ela teria comprado para economizar dinheiro, mas os autênticos; e ela sabia que ele iria encontrar aquela mulher denovo, por que ao contrário dos frágeis falsos depósitos que devem ser reciclados responsavelmente, tupperwares de verdade devem ser devolvidos aos seus donos.

Wow! Woody Allen, ajoelhe-se. Estamos diante Bill, Louise & the Tupperware. A contar pelo background dos protagonistas, podemos imaginar um Bill gorduxo, que seu encontra ocasionalmente com sua amada amante para desfrutar de chicken wings entre um beijo e outro. Louise – a ciumenta – não imagina que seu marido a trai pelo simples fato de ela não saber cozinhar. No tempo de amores líquidos, essa introdução pode ser vista como uma nova versão de Closer, com certeza. Merece o quinto lugar pela atualidade do tema.

4) Eles tinham somente uma noite juntos, então se abraçaram tão forte como aquele queijo de dois sabores que é laranja e amarelo-esbranquiçado, sendo o laranja provavelmente Cheddar e o branco… Mozzarella, apesar de possivelmente ser Provolone ou somente queijo Prato, mesmo não tendo sabor diferente do queijo laranja, e ainda assim eles te fazem acreditar que tem, pela cor diferente.

Sexo e comida estão sempre ligados na “vida real”, é impressionante. Mas misturar sexo, comida e literatura pode ser um erro. Foi o que nossa queria Mariann Simms fez, na mesma linha do nosso quinto lugar. Ao final das primeiras linhas, nós já podemos esquecer o romance e comecemos a refletir sobre sabores de queijos e suas reais diferenças. Quarto lugar por consideração, creio que não merecia estar entre os melhores piores.

O terceiro lugar vai para o começo de ficção científica vencedor do concurso do ano de 1985, meu ano preferido (mentira). O texto é de Martha Simpson:

3) A contagem regressiva iniciou aos 69 segundos quando Desiree, a primeira macaca a ir ao espaço, piscou para mim e fez um bico com seus lábios rígidos – o primeiro de muitos avanços ao longo da que seria a mais longa e memorável viagem espacial de minha carreira.

Ta certo que em ficção científica é válido dizer qualquer coisa. Michael Crichton imaginou que um dia, uma nuvem de nano-shit ia dominar o mundo, nem por isso foi crucificado. Mas o estágio da humanidade imaginado pela queridíssima Martha Simpson nas primeiras linhas do seu romance já garantem o seu terceiro lugar: vivemos em 1985, onde macacos viajam ao espaço com seus companheiros (amantes?) astronautas. Um pequeno detalhe pode ter escapado: macacos já tinham foram lançados ao espaço bem antes antes dos anos 80, em meados dos anos 50. Qual o ponto em imaginar uma história em que o proposto como um troço futurista já estava mais manjado do que a playboy da feiticeira? Um dos piores, definitivamente.

2) Gerald começou – mas foi interrompido por um assobio cortante que custou a ele 10% de sua audição permanente, como aconteceu a todo mundo em um raio de 10 milhas da erupção, não que isso importasse muito porque para eles ‘permanente’ significava os próximos dez minutos ou até eles serem enterrados pela lava ou sufocados pelas cinzas – a mijar.

Sem sombra de dúvidas, um potencial clássico da literatura. Um personagem central importantíssimo, cujo simples ato de mijar é relevante o suficiente para ocupar a primeira linha do livro. Mas não tão importante quanto o evento secundário (!), a catástrofe natural que matará a todos em tempo suficiente para que o romance não dure até a terceira página. Formidável.

O primeiro lugar – na mesma linha das desilusões amorosas e delícias gastronômicas – vai para o início de romance escrito por David Zobel, vencedor do concurso em 2004:

1) Ela decidiu terminar seu affair com Ramon esta noite … rapidamente, como Martha Stewart arrancando a veia de areia do rabo de um camarão … apesar do termo “affair” agora a atinja como um ridículo eufemismo … não como “veia de areia”, o que é afinal de contas um intestino, e não uma veia … e aquela substância dentro dela certamente não é areia … o que a trouxe de volta para Ramon.

Marcante metáfora envolvendo affairs, gastronomia e… fezes. A sutileza com que o autor tratou o casinho entre sua personagem principal, Ramon e comer merda é fantástica. Acho que aí há uma referência oculta ao curta 2girls1cup (NSFW). Apesar disso, a imprecisão científica das linhas iniciais me deixam insatisfeito: o intestino do camarão fica na cabeça, e não no rabo. Grande vencedor.

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2 comentários.

2 comentários Comentários e trackbacks estão fechados no momento.

  1. j. noronha, 10/12/08
    1

    O Paulo Francis sempre citava um cara que incomodou um monte até ele dar uma olhada em um livro. O começo fazia qualquer um desistir:

    “É Natal, bimbalham os sinos…”

  2. Pri, 11/12/08
    2

    Bimbalham???
    Kkkkkkkkkk
    Eu que leio ate bula de remedio, não conseguiria ler nenhum desses romances ai.

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    Uma explosão de sabor.

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