Relação entre pobreza e religiosidade

Esta é uma tese que tenho há algum tempo. Podem reparar: ateísmo, agnosticismo e dúvidas em relação à existência de deus não é comportamento de gente pobre. Isso é frescura de rico. Tu, meu esclarecido leitor, mesmo que ainda acredite em alguma força mística superior, já deve ter se questionado a respeito desta existência. Mas o capiau que sobrevive no interior do cu do sertão, aquele que em casa não tem nem água encanada, não duvida, nem por um instante, que tudo o que ocorre no mundo depende dos desejos de um criador.

Dados

Mas como comparar diferentes graus de religiosidade? Como medir riqueza de um país? Eu tentei deixar tudo da maneira mais simples possível, mas ainda com algum sentido. No caso deste post, para riqueza utilizei a renda per capita do país (o PIB dividido pelo número de habitantes). Para religiosidade, a porcentagem de pessoas que não acredita em algum deus ou força superior.

Obtive os dados analisados na Wikipedia. Utilizei a List of countries by GDP (PPP) per capita, que possui 166 países listados. Combinei esta tabela com a Religions by country, que apresenta dados de aproximadamente 200 países, mas nem todos completos. Por isso, tive que editar os dados de modo a ficar com os mesmos países em ambas listagens. No final, sobraram 116 países para analisar.

Minha intenção é verificar se há alguma correlação positiva entre a porcentagem da população de um país que não acredita em deus e a renda das pessoas de lá. Se a resposta para isto for positiva, tentarei ajustar uma reta a estes dados, através de uma regressão linear simples.

O que é regressão linear simples, afinal?

Eu darei pra ti, leitor leigo que não tem a obrigação de saber o que é uma regressão linear, dois exemplos bem simples do que são dados que possuem correlação entre si e que podem ser analisados através da regressão linear e um exemplo que não possui correlação.

Dizemos que duas variáveis aleatórias são correlacionadas positivamente se, dado que o valor de uma variável aumentou, o valor da outra variável tende a aumentar. Por exemplo, pense na altura e no tamanho do pé de uma pessoa. É de se esperar que pessoas altas tenham pés maiores que pessoas baixas. Ou seja, mais alto, maior o tamanho do teu pé.

Dizemos que duas variáveis aleatórias são correlacionadas negativamente se, dado que o valor de uma variável aumentou, o valor da outra variável tende a diminuir. Um corredor de maratona sempre deseja que seu tempo para completar a prova seja cada vez menor. Mas para isto ele precisa treinar, precisa passar horas correndo para adquirir velocidade e resistência. É fácil ver que quanto mais alguém treina, melhor será seu desempenho numa corrida. Ou seja, mais tempo treinando implica em menor tempo para completar uma prova.

Por outro lado, não parece razoável supor que o peso das pessoas influam na sua habilidade para aprender uma língua estrangeira. Assim, peso e capacidade de aprender uma língua não são correlacionados.

A correlação entre duas variáveis varia entre 1 (perfeitamente correlacionadas de forma positiva) e -1 (perfeitamente correlacionadas de forma negativa), passando por 0 (variáveis não correlacionadas). No caso das variáveis analisadas neste estudo, a correlação entre elas é de 0,5723. Ou seja, há forte indício de que as variáveis são correlacionadas.

Modelo

O primeiro passo para verificar se a hipótese de um modelo linear é razoável é fazer um gráfico. Por isso, plotamos as duas variáveis, uma contra a outra.

Relação entre pobreza e religiosidade

Aparentemente, apesar de correlacionados, os dados não apresentam uma relação linear. Por isso, tentei diversas transformações nos dados de modo que uma relação linear aparecesse. A transformação que melhores resultados apresentou foi a logarítmica, nas duas variáveis. O resultado está abaixo.

Relação entre pobreza e religiosidade

Claramente, há uma tendência nos dados. Percebam que conforme os valores presentes no eixo horizontal aumentam, os valores do eixo vertical tendem a aumentar também. Ou seja, quanto mais gente em um país não acredita em deus, maior é a renda per capita deste país, indicando uma relação positiva entre estas variáveis, relação positiva esta já atestada pela correlação de 0,5723.

A regressão então é dada por

Call:
lm(formula = log(religion$GDP) ~ log(religion$NotReligious))

Residuals:
Min 1Q Median 3Q Max
-2.9727 -0.4943 0.1652 0.7153 1.8597

Coefficients:
Estimate Std. Error t value Pr(>|t|)
(Intercept) 8.57172 0.11337 75.611 < 2e-16 ***
log(religion$NotReligious) 0.38221 0.05069 7.539 1.23e-11 ***
---
Signif. codes: 0 ‘***’ 0.001 ‘**’ 0.01 ‘*’ 0.05 ‘.’ 0.1 ‘ ’ 1

Residual standard error: 1.019 on 114 degrees of freedom
Multiple R-squared: 0.3327, Adjusted R-squared: 0.3269
F-statistic: 56.84 on 1 and 114 DF, p-value: 1.230e-11

Traduzindo, há uma reta que se ajusta aos pontos e ela é dada por

\log(\mbox{Renda per capita}) = 0.38221\log(\mbox{Percentual de Nao Crentes}) + 8.57172

Claramente, tanto o intercepto quanto o coeficiente angular da reta ajustada possuem p-valores bastante baixos, indicando assim que são estatisticamente diferentes de zero. Assim, a reta ajustada fica desta forma:

Relação entre pobreza e religiosidade

Conclusão

Ao final, podemos concluir que a renda per capita de um país não é inteiramente explicada pela porcentagem de sua população que acredita ou não em algum deus. O valor R2=0,3327 informa que, de um máximo de 100%, apenas 33,27% da variância da renda per capita é explicada pela porcentagem de pessoas que não creem em algum deus.

Além disso, é possível que a religiosidade de um povo dependa do nível de sua educação, dentre outros fatores. Infelizmente, não obtive acesso a estes outros dados para realizar uma análise mais completa.

Ou seja, seria muito leviano da minha parte afirmar, com certeza absoluta, que povos mais que acreditam em algum deus são, em geral, mais pobres que povos menos crentes. Leitores mais atentos devem lembrar que minhas conclusões a respeito dos signos dos pilotos de Formula 1 influenciarem em suas vitórias também seguem este estilo, sendo um tanto quanto comedidas.

O que talvez faça mais sentido do que imaginar a religiosidade de um povo influenciando na riqueza da nação seja justamente o oposto desta afirmação. Acho mais provável que países pobres tendam a ser mais religiosos que países ricos. A renda explica a religiosidade, e não o contrário.

Se levarmos em conta que pessoas pobres, sem instrução e, principalmente, sem perspectiva de melhora de condição de vida, necessitam de algum tipo de promessa de conforto para o além-vida, para tornar o fardo existencial um pouco mais suportável, fica fácil entender porque minha afirmação anterior parece ser um pouco mais correta.

E o que vocês, nobres leitores, acham disso?

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10 comentários.

10 comentários Comentários e trackbacks estão fechados no momento.

  1. Soares, Geraldo, 22/2/10
    1

    Caro autor (mas não tanto, aparentemente),
     
    O que havia dito mesmo, a respeito dos malucos que pregam a Bíblia no metrô?!
     
    Tudo isso; para inevitavelmente chegar à conclusão final de que as variantes analisadas estão longe (mesmo) de serem suficientemente determinantes a respeito do objeto “de estudo”!
     
    Em suma…
     
    Matematicamente falando: anteriormente à leitura do texto seu leitor estava no Ponto 0. Após a leitura do texto… Ponto 0.
     
    Imaginar com base no ambíguo e por conta própria não faz muita diferença, afinal.
     
    E isso não é o que eu acho, se é que me entende.
     
    Aos que gostariam que eu desistisse de comentar no blog: devem agradecimentos ao autor.
     
    Nota: marcus (sic), esta é uma boa ora para voltar a ler o que comento ;), pois, depois dessa, este foi o último.
     
    Ah, me chamar de “boboca feioso” não teria validade caso o objetivo fosse que isto chegasse ao meu conhecimento (e também, não faz exatamente a diferença pra mim); contudo, fique à vontade, se assim desejar…

  2. Rodolfo Castanho, 22/2/10
    2

    Marcus. Interessante texto. Na minha opinião, não acredito que a ligação religião-renda tenha muito nexo. Na verdade acredito que você poderia fazer uma ligação com nível de educação e fanatismo religioso. Lembrando que não chamo de nível de educação apenas a formação escolar da pessoa. Educação englobaria tudo o que é aprendido na escola, com a família e com o tipo de cultura que você consome. Se olhar bem, até naquelas igrejas que pedem dinheiro tem pessoas com nível superior completo, alguns empresários… enfim, nível de escolaridade e renda não afastam uma mente idiotizada rumo ao fanatismo, seja ele religioso ou por esportes, etc… Bem, essa é uma breve análise pra não tomar muito espaço de seu blog. Abraço.

  3. Marcelo Ferrari, 22/2/10
    3

    Olha, penso que a renda possa influenciar apenas no sentido de as pessoas estarem mais preparadas para aceitar uma idéia de crença diferente. Como vc mesmo finaliza no post, pessoas pobres, sem instrução, etc, precisam de algo para se agarrar e prosseguir em frente.

    A religião serve como base para que as pessoas não pensem que tudo está perdido quando nada dá certo em suas vidas; logo o dinheiro das mais abastadas tomaria (teoricamente) este papel.

    O que leva as pessoas a crerem em uma religião x ou y é inteiramente cultural, passado através das famílias para suas proles; os grupos ateus não são muito diferentes. Às vezes surgem por desilusões na vida, ou qualquer outro motivo aleatório, mas todas as nossas crenças são baseadas em algo que aprendemos culturalmente falando, seja através da família, escola, televisão, ou qualquer outro formador de opinião.

    Com a maioria da população tendo uma crença religiosa é natural que essa religiosidade se mantenha, independente do poder aquisitivo; muitos ‘ricassos’ dão crédito de seus méritos a alguma entidade superior.

    Acho que seus cálculos seriam mais felizes se vc levasse em conta as catástrofes de cada país, o percentual de ateus já existentes no passado para agora, ou qualquer outro fator que possa levar ao ateísmo, como comentei acima, do que a renda per-capita;

  4. Gabriel Miró, 22/2/10
    4

    Mateus 19:16-24: De fato os ricos tendem a confiar mais em seu dinheiro e conhecimento o que os torna menos dependentes de Deus.

  5. Gian, 22/2/10
    5

    Credo… fazia um século que não lia os comentários aqui….

    Não tô perdendo nada. Porém, consigo te imaginar rindo sozinho em casa.

  6. marcus, 22/2/10
    6

    E estes são os melhores, Gian. Tu tem que ver os que eu apago sem publicar.

  7. Beatrix, 22/2/10
    7

    É, acho que existem vários outros fatores socioculturais ou que seja… não dá pra falar que religião é coisa de pobre, ou que pobre é pobre porque é religioso, por mais que as duas coisas estejam vinculadas. Tem muito crente por aí cuja religiosidade é diretamente vinculada a fazer dinheiro. E por que não uns pobres ateus que não concebem um Deus tão injusto? Aí, quem sabe, eles se tornem cheios de indignação e lutam sem escrúpulos até virarem ricos ateus.

  8. Laila Paschoal, 22/2/10
    8

    E eu que acredito um vários deuses?
    Entro em algum lugar? rsrs

  9. Rodolfo Castanho, 23/2/10
    9

    Certo Gian… Porque não deixa sua opinião? Aí poderemos ver se não somos nós que estamos ganhando com a ausência de seus comentários.

  10. Odair, 6/4/10
    10

    Gostei do artigo, demonstra o que poucos fazem, partir de uma simples pergunta tentar entender fatos que podem ter ou não correlação, coisa que alguns fanáticos não entendem, mesmo que o seu texto não tenha totalmente provado que seu pensamento estava errado, ainda o atacam só por que você provou que estava errado. Incrível!
    Gostei da conclusão e irei acompanhar mais seus artigos.

    Agradeca a @fabianelima, pela indicação deste artigo no twitter dela.

    Grato, Odair.

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