Passaporte

26.Fev.2008 @ 9:40 am
Arquivado em Cotidiano
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Então sexta-feira fui para Caxias fazer meu passaporte. Até que foi uma boa viagem, se eu desconsiderar que passei mais de sete horas fora de casa para ser atendido em exatos 15 minutos no posto da Polícia Federal.

Eu poderia usar este post para exaltar a beleza das garotas caxienses, principalmente da morena decotada que me atendeu, mas vou falar do bizarro da volta.

Estava eu sentado no ônibus, esperando a partida. Banco 13, janela, mochila no colo, Doritos Dippas ao meu lado e iPod com House na mão. Eis que surge um homem e pede licença para senta ao meu lado. Educado, retirei o pacote de Doritos e ele sentou-se.

Continuei assistindo House. Durante uns cinco minutos, mais ou menos, o cara bocejou, fungou, expectorou (mas sem cuspir), se espreguiçou. Eu estava na minha, até que caí na maior asneira que se pode fazer nestes casos: estabeleci contato visual.

É sério: se houver um maluco ou um vendedor perto de vocês, nunca estabeleçam contato visual. Eles entendem isto como um convite à conversa.

Mas eu fiz esta bobagem e ele perguntou se o que eu tinha na mão era uma TV. Eu disse que não; que era um aparelho tipo um DVD, onde eu colocava filmes para assistir. Ele disse:

-Ah, o que é a tecnologia. Tu já viu aqueles pote-book, mote-book, aquelas coisas que abrem assim…

E fez um gesto com a mão, como que abrindo um notebook. Eu disse que sim, conhecia estes aparelhos. Tentei continuar a assistir meu seriado, mas ele não se ligava que eu não estava a fim de conversar e continuava a me interromper. Desliguei o iPod, tirei os fones e comecei a conversar com ele.

Me perguntou da minha vida e me falou da dele. Até que um momento ele quis saber o que eu tinha ido fazer em Caxias, já que eu era de são Leopoldo.

- Fui fazer meu passaporte.

- Para onde tu quer viajar?

- Estados Unidos.

- Mas tu sabe falar americano?

- Olha, eu não sei dizer tudo em inglês, mas me viro bem. Aliás, não sei o significado de algumas palavras em português, que dirá em inglês.

- Ah, mas tu sabe falar americano?

- Sei.

- Tu sabe falar americano? Se te mandarem sair de um lugar, tu vai saber?

- Vou.

- Se te mandarem entrar num lugar, tu vai saber?

- Vou.

- Se tu precisar pedir informação, tu vai saber?

- Vou.

- Então como se diz “eu quero ir à padaria”?

- I wanna go to the bakery.

- E como se diz “eu quero sair da padaria”?

- I wanna leave the bakery.

- Hum… Parabéns. Tu sabe falar mesmo.

(Nota: ele tentou repetir o que falei, mas as frases saíram tão bizarras que eu nem lembro como foi. Se eu tivesse dito as mesmas frases em russo ou em klingon, ele não perceberia.)

Lá pelas tantas, ele começou a falar de Deus para mim. Que Deus isso, que Deus aquilo, que a igreja dele isso, que Jesus aquele outro. Aí me disse que ele era vendedor e vendia CDs do Padre Marcelo Rossi e o Terço Bizantino (”tenho perolado, prateado e o que brilha no escuro”). Me mostrou um dos conjuntos de CD e terço. Falsificados, claro. Até pensei em dizer que ao vender produtos falsificados ele transgredia o oitavo mandamento (não furtarás), mas fiquei na minha. Não dá para argumentar com malucos.

Conversa vai, conversa vem, ele profere mais uma seqüência de pérolas, enquanto descíamos a serra e a diferença de pressão se fazia sentir em nossos ouvidos:

- Meu ouvido tá tampado.

- Boceja que passa.

- O quê?

- Boceja que passa.

- O que é borcejar?

- Bocejar é aquilo que fazemos quando estamos cansados. Abrimos a boca e bocejamos.

- Mas eu não consigo borcejar.

- Então espera o ônibus estabilizar. Chegando em São Leopoldo, numa altitude mais baixa, este problema deve desaparecer.

- Meu ouvido tá tampado.

- Espera o ônibus estabilizar. Quando chegar em São Leopoldo, isto deve ter passado.

- Meu ouvido tá tampado.

E o loop se manteve por um tempo. Até que ele disse:

- Será que tenho que ir ao médico?

- Se tu for semana que vem a Caxias, repara se isto vai acontecer novamente. Se acontecer, acho bom te preocupar. Se não, fica tranqüilo.

- Será que tenho que ir ao médico?

- Espera semana que vem. Se o problema se repetir, procura um.

- Será que tenho que ir ao médico?

- Tem que ir. Acho bom procurar.

- Mas o que um médico vai fazer comigo?

- Vai pedir exames.

- Ah…

Silêncio. Até que ele falou:

- Tem um posto de saúde 24 horas onde eu desço. Será que devo passar lá?

- Deve.

- Mas o que eles podem fazer comigo?

- Exames.

Silêncio. Coloquei meus fones novamente no ouvido e voltei a assistir House.

Ele continuou a falar comigo, mas eu me mantive sem contato visual e dava apenas respostas monossilábicas, até que ele desistiu e dormiu.

Não obstante, cheguei em São Leopoldo e tive que passar por cinco sorveterias para encontrar um milk shake para viagem.

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25 Comentários

  1. Julia

    É por isso que amo fones de ouvido que isolam e 10mg de Alpraz.

    Comentado em 26.Fev.2008

  2. Julia

    É por isso que amo fones de ouvido que isolam e 10mg de Alpraz.

    Espertinho esse teu título adsense-friendly, vai enganar as pessoas que realmente querem conseguir informação! :P

    Comentado em 26.Fev.2008

  3. éver

    Mas pq ir pra CAXIAS fazer passaporte ?

    Comentado em 26.Fev.2008

  4. Bruno

    O que seria desse post sem um maluco? Os malucos são uma maravilha para os blogueiros.

    Comentado em 26.Fev.2008

  5. Vica

    Mas pq tu teve que ir pra Caxias?
    Só tem maluco nesse mundo. Eu também sou da teoria do ‘não estabeleça contato visual’, os doidos também me perseguem…

    Comentado em 26.Fev.2008

  6. Paulo

    O chato é aquele que vc pergunta tudo bem? e ele responde.

    Comentado em 26.Fev.2008

  7. marcus

    Tu sabe, né Julia? Ganhos acima de tudo

    Comentado em 26.Fev.2008

  8. marcus

    Éver, fui para Caxias porque em dezembro já não havia datas disponíveis para entrevistas em final de fevereiro ou início de março na Polícia Federal de Porto Alegre.

    Comentado em 26.Fev.2008

  9. Leo

    Sei bem como é isso, uma vez voltando de Santa Cruz do Sul, um evangélico me contou a vida toda dele e mais um pouco, enquanto eu tentava me concentrar na HQ que eu tava lendo, não satisfeito, ainda me entregou um panfleto e um convite pra aparecer na igreja dele. Lamentável.

    Comentado em 26.Fev.2008

  10. Fabio Brito - PsychoPenguin

    Tu tem sorte de não ter convivido com um sujeito chamado João da Honda, motorista da Prefeitura Municipal de Jequié.

    Além de não falar direito (inclusive palavras simples como meu nome, que só saia Fabo), o cara tinha mania de sair gritando imitando uma “imbulança” enquanto dirigia.

    Sim! Esse era esse cara que ia me buscar no hotel e me levar pra trabalhar na prefeitura.

    Comentado em 26.Fev.2008

  11. Janio Sarmento

    Cara, adorei a crônica, deliciosa!

    Também não entendi por que tu foi a Caxias fazer passaporte, mas eu assino o fide, e espero que em breve esse mistério se resolva.

    A propósito, tu tá com a versão errada da vitrine JáCotei, por isso não tá te rendendo nada. O link está apontando para http://lucrandonarede.com/c/xxx/xxx, e o correto seria http://lucrandonarede.com/jc/c/xxx/xxx (capicci, o /jc que está faltando). Conserta lá ou entra em contato comigo.

    Comentado em 26.Fev.2008

  12. marcus

    Então Janio, fui para Caxias porque em dezembro, quando marquei a entrevista para fazer o passaporte, não havia horários disponíveis em Porto Alegre para o final de fevereiro ou início de março. Só me restou subir a serra.

    Valeu o toque pelo plugin. Já corrigi o link.

    Comentado em 26.Fev.2008

  13. Bender

    Sugestão para acabar com essas conversas: dê respostas longas com palavras incompreensíveis e completamente sem sentido q o cara desiste de falar.

    Tem funcionado para mim.

    Comentado em 26.Fev.2008

  14. trixie

    LINDO HAHAHA

    Comentado em 26.Fev.2008

  15. leitedevaca

    Viu, deu papo pra maluco… Dá nisso. Na próxima, leva uma mariola no bolso e dá pro maluco.

    Comentado em 26.Fev.2008

  16. Fanny Webber

    O pior é que eu geralmente dou “trela” para os malucos, geralmente ainda saio super feliz pensando que todas as pessoas são maravilhosas e como as coisas são legais quando se é leigo e não tem que se preocupar com tudo. Sim sou ingênuo. HUAHUAUHUHAUHAHu

    Comentado em 26.Fev.2008

  17. TioSolid

    Cara, por essas e outras que se eu pudesse pagar duas passagens para andar sozinho nas viagens que faço de busão não pensaria duas vezes.

    Fora os filhas das putas que dormem e ficam encostando em você ou mãe que leva criança que fica a viagem inteira gritando.. foda

    Comentado em 27.Fev.2008

  18. mariana dias

    terço bizantino que brilha no escuro?
    padre marcelo rossi tá organizando rave?

    Comentado em 27.Fev.2008

  19. marcus

    E tem uns comprimidos de ecstasy do tamanho de hóstias =)

    Comentado em 27.Fev.2008

  20. TioSolid

    auheahuaaaeahuehu³³³³³ ai ai :~~

    Comentado em 27.Fev.2008

  21. Como evitar encontros indesejados - a desculpa certa | Cotidiano | A Grande Abobora

    [...] eu ainda não tenho o desprendimento social para mandar chatos conhecidos para longe (nem com desconhecidos eu consigo fazer isto). Então o que faço assim que tenho uma chance? Digo logo a frase cabalística que sempre resolve [...]

    Comentado em 12.Mar.2008

  22. srta. rosa

    Hahaha, eu me chicoteio quando sento do lado de um louco desses e dei o azar de esquecer meu mp3 em casa!
    Fingir que está dormindo também costuma surtir efeito. Mas tem uns pirados malas que ainda te cutucam pra ver se vc acorda.

    Comentado em 12.Mar.2008

  23. Otávio Hoffmann

    Esses malucos só epseram você dar uma olhada de canto e já começam com assunto, nossa, pessoal muito carente. Ainda bem que existe nossos iPod’s!

    Comentado em 13.Mar.2008

  24. Mi9hhh_Looz

    Muitooo bom…
    Etava procurando por outra coisa, mas não me contive!!
    *.*
    Beijoss

    Comentado em 27.Mi.2008

  25. Mihhh_Looz

    Ô tecladinho bomm heim..hahaha

    Comentado em 27.Mi.2008

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