O meu escritório aqui na PSU é dividido com outros quatro alunos. Somos um brasileiro, um ganês, um chinês, um vietnamita e um cazaquistanês cazaque. Sendo assim, estou naquele que creio ser o escritório mais rico em termos de variação étnica neste departamento.
Só que variação étnica, ainda mais vinda da África e do Oriente, é muito mais discrepante entre si do que variação étnica vinda do Ocidente. Meus hábitos enquanto rapaz latino-americano, sem dinheiro no bolso e vindo do interior, são mais parecidos com os hábitos dos latinos, americanos e europeus que encontrei por aqui do que com os hábitos dos africanos, árabes, persas, indianos e orientais.
Dentro do escritório, minha mesa fica próxima à janela da sala, no lado oposto à porta. Desta forma, só tenho contato visual com meus colegas quando tenho que sair e passar pela porta. Mas, graças à audição, posso ouvir quando eles entram e sei quando estou sozinho ou não.
Os alunos vietnamita e cazaque raramente vem a esta sala. Me sobram o ganês e o chinês como companhia. Estes dois alunos estão mais próximos dos esteriótipos típicos dos seus países de origem do que eu estou de um brasileiro idealizado: o ganês é negro, mas baixo e gordo, enquanto o chinês, apesar de ter mais de 1,90m de altura, é amarelo e tem olhos puxados.
A minha audição, além de me permitir saber quando estou sozinho ou quando estou acompanhado, também me permite saber quando alguém peida na sala. Como nunca sei quem está aqui comigo, só posso inferir que, graças ao ar ventilado que emana das entranhas meridionais destes meus nobres companheiros de educação suíça, foi algum dos quatro que peidou. Como os outros dois, o vietnamita e cazaque, nunca aparecem por aqui, só me resta suspeitar que ou é o preto, ou é o chinês que realiza a sinfonia flatulenta diária deste escritório.
Semestre passado a situação era mais tranquila. Creio que tenham ocorrido, durante o semestre inteiro, uns três ou quatro flatos isolados. Suspeito que a partir deste semestre a alimentação de um deles foi mudada e, em vez do maldito peidorreiro estar consumindo aquilo que seu estômago estava acostumado, o nobre embaixador passou a ingerir repolho, feijão, beterraba, soja e transformou minha sala num eterno 4 de julho.
Como dito anteriormente, não consigo saber quem está comigo no escritório e não tinha certeza sobre quem ficava tentando equilibrar a concentração de metano interna de seu corpo com o ar do escritório. Mas, graças aos meus preconceitos, eu já tinha julgado e condenado um dos dois, ou o ganês, ou o chinês, pelo aumento dos coliformes fecais aéreos do ar que eu respiro diariamente. Hoje sei quem é o culpado, mas não o exporei ao ridículo aqui.
Só direi que se o maldito continuar a peidar nesta frequência por mais uns dois meses, vai desinflar e passar de seus 1,90m de altura para meros 1,60m.