-E o que fazem os mortos, tio? Comem, ouvem música, saem para caçar e festejam como nós, os vivos?
-Não, pois eles dormem.
-Senhor, senhor, bem gostaria eu de estar morto. Nada dormi nestas seis noites.
John Webster, O Diabo Branco
Depois de 38 horas de viagem, eis que cheguei em Porto Alegre, na madrugada de sexta para sábado, são e salvo.
E com um MacBook preto na mochila \o/
Depois da peregrinação, posso afirmar que melhor companhia aérea na qual já viajei foi a LAN Chile. Nos dois aviões que tomei haviam aquelas telinhas de LCD para tu poder escolher a tua programação de áudio ou vídeo, aeromoças bonitas, boa comida e vinho para beber.
Vinho chileno, é óbvio.
Se no áudio havia bombas latinas como Luis Miguel, a parte de rock compensava. O catálogo possuía, dentre outras boas coisas, três álbuns do Beck: Odelay, The Information e Modern Guilt.
Mas o melhor é o vídeo, claro. Parece que haviam filmes no catálogo, mas eu passei minhas horas voando assistindo a 30 Rock, Everybody Hates Chris, Two and a Half Men, House e Everybody Loves Raymond.
Posso dizer que o aeroporto de Santiago é o melhor em que já estive (e já foram 11, até hoje). Wi-Fi de graça, paisagem bonita, atendentes prestativos e educados. Show de bola.
Mas eis que em São Paulo, graças à falta de conexão wireless gratuita, resolvi colocar meus fones e assistir um episódio de How I Met Your Mother. Eis que do nada surge em minha frente um cidadão de barba por fazer, boina e camiseta com estrelas vermelhas. Não preciso dizer meu alarme de estereótipos disparou. Nas mãos, ele carregava uma pilha de jornais.


Ele me ofereceu uma cópia do jornal (Jornal Causa Operária), que prontamente aceitei (apesar dos R$3) pois se tem coisas que não nego na rua são doces de estranhos, revistas de testemunhas de Jeová e panfletos comunistas.
O título deste post é justamente o título da matéria na última do jornal. Com 20 páginas e freqüência semanal, a publicação tem muitas outras matérias com títulos interessantes, como
- Vítimas dos Mais Brutais Ataques, Decisão do STF Coloca Agora Terras Indígenas Sob Ameaça
- Ocupação: único modo de barrar as demissões
- Grande vitória dos estudantes: 90% boicotam a eleição-farsa
- Mais uma vez estudante é perseguido na USP por distribuir panfletos
Notícias sobre índios, editoriais pregando a ocupação das fábricas pelos trabalhadores e picuinhas de DCEs paulistas.
Adoro tudo isso, claro, mas a minha manchete preferida é:
Para o capitalismo, não há direitos, nem humanos
Alguém paga uma viagem destes caras pra Cuba ou pra China, por favor?
Mas sendo um jornal do povo, e sendo nós o povo, podemos colaborar com o jornal. Neste link está o formulário para que tu contribua com matérias e editoriais para o jornal.
Gratuitamente, claro.
Mas eu tu quiser ler o conteúdo das matérias no site do jornal, sinto muito:

O jornal é para o povo e para os operários, mas apenas quem pagar a assinatura do jornal(1) pode desfrutar das suas cremosas matérias preocupadas com o lado social da vida brasileira.
Acho estranho um comportamento tão capitalista em uma publicação preocupada com o bem-estar do trabalhador.
Ah, mas vocês querem saber o que achei do jornal, certo? Sobre as matérias e tal? Eu só tenho uma coisa a dizer:

(1)Eu pelo menos acho que seja assim, pois não encontrei nenhum local no site do jornal que permitisse um cadastro gratuito, apenas indicações informando que as assinaturas devem ser solicitadas por email. Enviei uma mensagem para eles e ainda não obtive resposta a respeito dos valores das assinaturas.
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3 comentários Comentários e trackbacks estão fechados no momento.
É até engraçada essa galera “engajada”. Contradição é o nome do meio desse pessoal.
E wi-fi de graça? Que maravilha. Esse fim de semana fiquei durante quatro horas no aeroporto internacional do rio e não pude fazer nada, pois me neguei a pagar um mísero real que fosse.
Não confio em nada que tenha comunismo, socialismo e rússia no meio.
Ótimo texto. Me deu vontade de sair por aí gritando “malditos comunistas subversivos”!