Alfred North Whitehead foi um filósofo e matemático inglês. Sua obra mais famosa chama-se Principia Mathematica, um trabalho em três volumes que tenta deduzir todas as verdades matemáticas a partir de um conjunto finito de axiomas e regras de lógica simbólica. Bertrand Russel foi co-autor desta obra.

Alfred North Whitehead
Uma das coisas que Whitehead mostrou foi a falácia que é pensarmos em um dicionário total (doravante O Dicionário), que consiga conter as palavras para todas as coisas possíveis.
As línguas possuem vocábulos exatos para situações bastante específicas. O português e a saudade são um exemplo cláasico. Saudade pode ser a “lembrança triste e suave de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de as tornar a ver ou a possuir; pesar pela ausência de alguém que nos é querido”. Em russo, chamamos de pochemuchka uma pessoa que faz perguntas demais. Uma pessoa que está disposta a perdoar qualquer maltrato pela primeira vez, a tolerar o mesmo pela segunda vez, mas nunca pela terceira vez é dita ilunga pelos falantes do idioma tshiluba, uma linguagem bantu falada na República Democrática do Congo. Em polonês, diz-se que alguém foi um radioukacz se trabalhou como telegrafista para os movimentos de resistência ao domínio soviético nos países da antiga Cortina de Ferro.
Todas estas palavras são de uso bastante específico, mas ainda assim podem constar em um dicionário, pois se referem a algo geral dentro de sua especificidade, e não a apenas um indivíduo. Para exemplificar, pensem em um tigre. Aquele grande felino laranja com listras pretas e alguns pêlos brancos. Pensem ele em uma posição qualquer, seja de ataque, brincando com os filhotes, correndo atrás da presa ou simplesmente dormindo.
Visualizaram?
Foi esta imagem aqui que vocês pensaram?

Um tigre
Provavelmente não. Provavelmente pensaram em algo diferente, por menor que seja a diferença. O tamanho do tigre poderia ser diferente, a posição dele, a coloração dos seus pêlos ou até mesmo o padrão das suas listras.
O Dicionário deveria ter uma palavra para cada tigre que já existiu e que existirá. Além disso, deverá ter uma palavra para cada momento da vida de cada tigre, pois a cada momento o tigre é diferente. Ele muda. Ou ele está com fome, ou ele está acasalando, ou ele está em duas patas. Ou tudo isso simultaneamente.
E não só os tigres são diferentes. As pessoas, os rios e as xícaras são diferentes a cada momento. A maneira como vi minha xícara agora foi diferente da maneira como a vi há dez minutos (meu ângulo de visão mudou e ela está vazia).
O Dicionário é uma tarefa impossível. John Wilkins já havia proposto algo parecido (mas não tão absurdamente completo) em An Essay towards a Real Character and a Philosophical Language, uma linguagem muito parecida com o que seria depois o Esperanto. Borges descobriu (descobrir e inventar são sinônimos) uma antiga enciclopédia chinesa organizada por um grande sábio, que divide os animais em
a) pertencentes ao imperador
b) embalsamados
c) domesticados
d) leitões
c) sereias
d) fabulosos
e) cães em liberdade
f) que se agitam como loucos
g) inumeráveis
h) que acabam de quebrar o jarro
i) que de longe parecem moscas
j) et cetera
l) incluídos na presente classificação
m) desenhados com um pincel muito fino de pêlo de camelo.
Algo que abarque todo o conhecimento, mesmo o redundante, é tarefa absurda. A Biblioteca de Babel e o Livro de Areia são dois absurdos que completam esta tarefa de forma magistral. O segundo, na minha definição, é a versão pocket do primeiro. Mas ambos são impossíveis de existir. Funes, O Memorioso, tentou realizar esta missão em vida. Ele seria O Bibliotecário do universo. Mas morreu muito cedo, sem lograr êxito. Mas mesmo se tivesse vivido todos os anos do universo, ele fracassaria. É informação demais para alguém sozinho (exceto para Deus).
Whitehead, ao contrário dos seus predecessores, que tentaram construir (ou mostrar como se constrói) algo total, provou que O Dicionário é impossível. Algo assim só poderia existir na ficção. Alguém que saiba tudo sobre todos é inconcebível dentro de uma lógica consistente.
Ou seja, ou Deus não sabe tudo ou ele existe apenas na ficção.
Como O Dicionário.
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13 comentários Comentários e trackbacks estão fechados no momento.
Marcus, volta pro PlayStation, please!
Agora falando sério: Marcus, volta pro PlayStation a-go-ra !
na lingua japonesa tem varias palavras super especificas. tachiyomi por exemplo é como eles chamam as pessoas que ficam folheando revistas nas livrarias e bancas sem pagar (!)
Apenas três observações sobre o post:
1 – é “especificidade” e não “espeficidade”;
2 – não acredito que eu leria um livro de um cara chamado “Cabeça Branca”
3 – tu não tem mais nada pra fazer?!
1- Mispelling. Já corrigi.
2- Eu já li um pouco do Principia Mathematica. É chato demais.
3- Jogar videogame e ler, mas cansei da primeira e está muito quente para a segunda.
Tem uma terceira opção, Marcus… Mas faz crescer cabelo na palma da mão… ia esquentar mais ainda ! :P
entao isso quer dizer que o tony ramos … : P
ou então é o cabeça branca que está errado. são coisas que tatormentam…
tudo isso pra falar que deus não existe?
Que não existem dicionários totais é relativamente óbvio!
Segundo Macedo (1998), os dicionários nasceram com os glossários e com as glosas feitas em livros, destinadas a explicar determinados vocábulos.
Dicionários servem apenas para explicar determinados vocábulos, têm determinada abrangência e maiores informações com Jussara Santos, no Departamento de Ciências da Informação.
Ah, sim, a referência:
MACEDO, Vera Amália Amarante. Dicionários. In: CAMPELLO, Bernadete Santos; CALDEIRA, Paulo da Terra; MACEDO, Vera Amália Amarante. Formas e Expressões do Conhecimento: Introdução às Fontes de Informação. Belo Horizonte: Escola de Biblioteconomia da Ufmg, 1998. p. 193-215.
(não pensem que pesquisei muito, tudo isso já estava pronto)
Quanto a Deus saber ou não saber e existir ou não existir, creio que a lógica não se aplica, pois se ele existe pode ter limitado nossa compreensão e se não existe somos muito burros por ainda não provarmos a inexistência.
Meus posts aqui estão ficando muito longos, eu preciso voltar a trabalhar de uma vez O.o
Gosto de estudar línguas. O conceito chomskyano é da língua infinita, ou seja, sempre haverá “palavra” + 1. Sei que sempre que vou ao Brasil há novas palavras, aqui há novas palavras diariamente devido a todas as invenções na tecnologia, modismos, palavras inventadas pelo Idiota.
Dou mérito aos que tentam colecionar as palavras e explicá-las para mim. A referência a Deus, sei lá eu. O mega dicionário de gíria USA parou no segundo volume há alguns anos. Só Deus?
nossa, isso que a tina falou me lembrou minhas aulas de linguagens formais.
Olá, cheguei aqui recomendado pela Tina, a falta de tempo não permitia uma leitura mais detalhada, hoje consegui.
Esse texto me lembrou o Autodidata, da Náusea, de Sartre, que estava lendo todos os livros da biblioteca municipal, em ordem alfabética.
Ah, também me lembrou da teoria do Stephen Hawkins para a existência, ou não, de Deus, semelhante à essa. Muito bom, já assinei o feed.