No sábado

No sábado tu me forçaste a lembrar de algo. Algo que eu já havia esquecido e que, por isso, já não dava importância. E esta coisa não era a função da tecla Scroll Lock.

Há 22 meses e um dia eu enviei um e-mail (des?)necessário e (só agora vejo) um tanto cruel para ti. E eu havia esquecido completamente deste e-mail até sábado. Neste dia tu me lembraste da existência dele, mas não do seu conteúdo exato. Recuperei-o ontem e vi que a coisa era pior do que eu imaginava.

Num primeiro momento achei chocante o que havia escrito. Mas tentei relembrar as circunstâncias nas quais o e-mail foi confeccionado. E uma sucessão de lembranças, boas e ruins, voltaram até mim. Li, reli e tornei a ler pela terceira vez e, apesar da crueldade contida nele, da quase gratuidade da agressão lá contida, achei-o necessário.

Necessário porque ele, modéstia à parte, está bem escrito. Ele deixa bem claro os sentimentos que eu tinha. É um tipo de exorcismo, algo que eu precisava dizer para alguém e que acabei achando o receptor e o meio pelo qual fazer isso. Foi muito duro escrever e deve ter sido mais duro ainda para ti, que o leu. Mas eu precisava disto. Eu precisava dizer tudo o que estava entalado. Como diriam os Belle and Sebastian no final de Get Me Away From Here, I’m Dying,

Into the windows of my lovers
They never know unless I write
“This is no declaration,
I just thought I’d let you know goodbye”
Said the hero in the story
“It is mightier than swords
I could kill you sure
But I could only make you cry with these words”

Eu poderia te matar com certeza, mas poderia apenas te fazer chorar com estas palavras.

E foi o que eu fiz. Sem arrependimento. Tão sem arrependimento que não lembrava do que tinha escrito. Se tu não tivesses me lembrado, o e-mail continuaria para sempre quieto, intocado. Eu não me sinto mal por nada do que escrevi.

Então era isso. Agora que reli o conteúdo das três páginas impressas (e constatei que em alguns pontos eu realmente estava com a razão), fico mais tranqüilo. Foram coisas horríveis sim, mas nada daquilo era mentira. Algumas coisas mudaram, mas fiquemos como estamos. É melhor assim.

Pra complementar, Santo Agostinho, em O Livre Arbítrio:

Enfim, só há culpa no caso de um ser recusar-se a ser o que tinha o poder de ser, se o quisesse. E porque aí se trata de recusar um bem que lhe foi dado, a alma se torna culpada.

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7 comentários.

7 comentários Comentários e trackbacks estão fechados no momento.

  1. trixie, 25/1/07
    1

    engraçado. ontem mesmo tava eu aqui entediada (tou já há quase duas semanas fora de casa), peguei o violão da minha tia e toquei get me away from here, i’m dying, e você me veio na cabeça na hora. sempre associei essa música a você não sei bem por quê.

    e quanto ao mail… como não sei do que se trata, melhor é não dizer nada. eu só queria alguma vez na vida ter feito algo assim – sou péssima em ser rude com as pessoas, simplesmente não consigo.

  2. marcus, 25/1/07
    2

    Eu sou muito bom em ser rude com os outros. Na próxima edição ilustrada do Houaiss virá uma foto minha ao lado do verbete rude.

  3. Carla, 25/1/07
    3

    Não posso falar quanto ao email porque desconheço conteúdo e afins, mas gostaria de comentar teu comentário (?) de que és rude. Talvez há 22 meses tu eras um cara rude. Talvez eu te conheça pouco, mas enfim, apesar de tudo, sempre foste muito gentil. As pessoas mudam…

    Gosto muito dessa citação do Santo Agostinho e daquela passagem bíblica, que considero complementar: “Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém”.

  4. Nina, 25/1/07
    4

    ola! primeira vez que comento no seu blog, apesar do seu ja estar no favoritos do meu. hihihihihi
    criei coragem pra comentar, visto que mesmo nao sabendo causa, motivo, razao ou circunstancia lhe fizeram escrever o email, tb fiz algo parecido ha poucas semanas. nao sei se vou me arrepender, mas por enquanto…me sinto bem.
    abracao:wink:

  5. éver, 26/1/07
    5

    Sobre o que vcs estão falando, hein ?

  6. tina oiticica, 26/1/07
    6

    Fui muito grossa com uma amiga principalmente por irritação dela dar palpite em assuntos que não lhe dizem respeito e de que não entende. Não senti necessidade de pedir desculpas mas com o passar dos meses pedi. Foram aceitas só teoricamente porque passei a receber recadinhos dos seus serventes: –Dra. Fulana não se encontra.
    Ontem nos falamos e saquei uma frieza… Prefiro honestidade que “Ah, tá tudo bem.” Logo, baseada na minha experiência, em que eu tinha toda razão mas no fim parece que sou malvadinha, acho que você fez o que tinha que fazer e vá em frente.

  7. Kicca, 27/1/07
    7

    :oops:
    Fala sério… tô mostrando mais do que devia? Mostrei agora ao Luiz e ele não viu nada demais não… E olha que ele é bem cri cri com essa coisa de foto na Net… :roll:
    Postei a foto pra brincar com os blogueiros mesmo. Esse ano estou cumprindo a meta de aproveitar o Sol sempre que possível. Ontem, aqueles minutinhos que fiquei (mesmo à sombra, com guarda-sol e protetor solar fator 15) consegui me torrar… Até parar de arder não posso nem sonhar em pegar Sol…

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