Precisamos de uma estética do frio, pensei. Havia uma estética que parecia mesmo unificar os brasileiros, uma estética para a qual nós, do extremo sul, contribuíamos minimamente; havia uma idéia corrente de brasilidade que dizia muito pouco, nunca o fundamental de nós. Sentiamo-nos os mais diferentes em um país feito de diferenças. Mas como éramos? De que forma nos expressávamos mais completa e verdadeiramente? O escritor argentino Jorge Luís Borges, que está enterrado aqui em Genebra, escreveu: “a arte deve ser como um espelho que nos revela a própria face”. Apesar de nossas contrapartidas frias, ainda não fôramos capazes de engendrar uma estética do frio que revelasse a nossa própria face.
Este texto está escrito na contracapa do livro A Estética do Frio - Conferência de Genebra, do Vitor Ramil. Adquri este livro ontem, após assistir o show de lançamento de Longes, seu mais novo álbum, no Teatro São Pedro.
Belo show. Apesar de ele ter tocado Sapatos por Copacabana, uma música dele que eu não gosto, e ter feito cover de Bee Gees, que eu achei desnecessário e destoante do contexto, foi um belo show. Foi o segundo show dele que assisti. O primeiro foi no ano passado, na Unisinos, onde era apenas ele no palco, voz e violão. Desta vez foi diferente. Tocou Vitor Ramil no violão, acompanhado de guitarrista, baixista, baterista e pianista. É incrível como as músicas dele ganham intensidade com banda. Ficam mais ricas, muito mais completas. Mas como sempre, tem gente que não gostou do show. Já publiquei algumas fotos que bati.
Neste momento ouço Longes, o disco novo. Parece uma fusão dos dois últimos trabalhos do Vitor. É uma evolução do Tambong. Mas enquanto Tambong me parece uma tentativa de Vitor ser aceito pelo Brasil, Longes é mais despretensioso. É Vitor reassumindo sua alma gaudéria, sem o extremismo de Ramilonga. É um disco melancólico, principalmente. Ainda é cedo para uma opinião mais elaborada, pois ouvi apenas uma vez.
Mas já posso eleger a minha música favorita do álbum. É Querência, milonga inspirada em poemas de João da Cunha Vargas. Os versos finais da música são algo de genial:
E hoje só o que me resta
É o pingo, o laço e o pala
Pistola só com uma bala
E a estrada pra bater casco
No pano da bota um frasco
E um fiambezito na mala
Agora vou gravar os mp3s deste disco junto com os outros pra poder ouvir no discman durante a semana e tirar melhores conclusões sobre o trabalho.



