Livros totais

17.Mai.2006 @ 10:08 pm
Arquivado em Literatura

Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos.

Isso é Nelson Rodrigues, antes que me perguntem. Se ainda não encontrei meus livros totais, encontrei meu autor total. Seu nome é Jorge Luis Borges, ele é argentino, gosta literatura inglesa e morreu quase cego.

Ler Borges é (perdoem-me a metáfora; como todas as outras metáforas, ela é desnecessária; como todas as outras metáforas, ela já foi dita) como perfazer um caminho a pé. Podemos simplesmente chegar até o destino, seguindo o caminho como quem segue sua Via Crucis, ou podemos chegar ao destino atentando para os seus detalhes, observando com cuidado a paisagem a cada instante. Apesar da brevidade dos contos de Borges, cada um tem algo nas entrelinhas, algo que escapa sempre em uma primeira leitura, algo que escapa em uma segunda leitura, algo que só se consegue captar se ao lermos nos tornarmos Borges.

Meu primeiro contato com ele foi em 2000. Naquele inverno de seis anos atrás eu estava abandonando a faculdade de Engenharia, começava a usar óculos, era um excelente jogador de Winning Eleven 4, descobria Belle and Sebastian e ganhava na boca beijos de amigas. Li Ficções e O Aleph, ambos em uma tacada só. Também freqüentei um seminário de sete encontros durante as manhãs de sábado em sua homenagem. Neste mesmo ano comprei os dois primeiros volumes de suas Obras Completas (são quatro traduzidos e lançados no Brasil) e os devorei. Aproveitei e reli Ficções e O Aleph, livros presentes no Volume I das Obras.

Desde aquele ano, salvo um pequeno conto chamado O Livro de Areia, que encontrei por acaso em um livro de Matemática, eu não lia nada novo dele.

Apenas relia e relia.

Um pouco porque queria ler outros autores, tentar encontrar um novo autor total, ou algo próximo disso. Até cheguei perto. Dostoiévski, por exemplo. Mas um pouco foi preguiça, admito. Não ia a sebos procurar suas obras esgotadas. Não entrava em listas de discussão para saber onde achar estes livros. E não leio Borges emprestado. Um Borges deve ser possuído, para que no dia em que me der na telha reler algo, eu possa ir até meu armário, pegar o livro e percorrer novamente seu caminho.

Mas eis que hoje saio da universidade e encontro um camelô vendendo livros. E lá está, justamente, O Livro de Areia. Este livro contém, além do óbvio, doze outros contos. Coisa de apenas 119 páginas. Já comprei e li, com calma, seu primeiro terço. Sei que não vou captar todas as nunces das treze pequenas pérola nesta primeira leitura. Por isso comprei-o. Assim daqui a alguns meses posso relê-lo.

E mais depois reler, reler e reler, sempre atento às novas perspectivas, aos novos detalhes.

Borges é meu único autor total.

10 Comentários

  1. Gian

    Belo post. Já admiti antes q ainda não li o Borges. Admito agora q tentei ler aquele conto para o qual tu colocastes um link aqui; e q não achei grande coisa. Nada mais normal… afinal de contas, eu sempre gosto de coisas menos festejadas. Acho q toda vez q ouço falar mto bem de algo, quando me deparo com este “algo” já vou com o freio de mão puxado.

    By the way… eu tb tenho pelo menos um autor definitivo: Albert Camus. É estranho como sempre encontro meus próprios pensamentos nas linhas que ele escreve.

    Comentado em 18.Mai.2006

  2. J.

    ando para ler alguma coisa de borges, ou comprar alguma coisa de borges, desde o meu décimo primeiro ano. 5 anos. odeio-te por o conehceres primeiro que eu, é incrível. não li o conto que aqui puseste de propósito para, justamente, o ler num livro dele que comprasse.
    vou rectificar o meu erro. amanha vou à fnac e compro um livro qualquer dele. é um erro meu imperdável.

    gian, de camus conheço, também infelizmente, pouco, mas um dos meus livros talismãs (ou, como diz o marcus, totais) é precisamente o estrangeiro.

    Comentado em 18.Mai.2006

  3. Gian

    “O estrangeiro”… primeiro livro q li do camus. Livro q me reacendeu o gosto pela literatura durante a inevitável fase de rebeldia dos 14 e 15 anos.

    Livro que releio pelo menos uma vez por ano.

    Comentado em 18.Mai.2006

  4. marcus

    Eu li O Estrangeiro uma vez apenas, e já deve fazer uns sete ou oito anos. E nem o li por causa de Camus; li por causa de uma música da banda de Robert Smith.

    Comentado em 18.Mai.2006

  5. Rubens

    Pra mim, dois autores totais são Arthur Clarke e Isaac Asimov…

    Comentado em 18.Mai.2006

  6. Rubens

    é, gol do Belletti é atípico mesmo! hehehehe…

    na verdade, eu tô lendo “Até Mais…” pela segunda vez! Gosto tanto da coleção, que resolvi lê-la de novo… rsrsrs… o Douglas Adams tinha uma imaginação incrível, e um humor muito inteligente e sarcástico.

    Vc já leu?

    Comentado em 18.Mai.2006

  7. Rubens

    é, eu concordo contigo… o primeiro é o melhor, até mesmo pela surpresa qdo se lê da primeira vez… depois vc se acostuma com o estilo do Adams, e já não tem todo o encanto…

    o três eu até gosto bastante, mas o quarto realmente é o mais fraquinho, de genial mesmo só a parte do Marvin… que aliás, é sempre o protagonista das partes mais legais de toda a série…

    Comentado em 18.Mai.2006

  8. Kicca

    Sei que deveria me envergonhar disso, mas não consigo encontrar paciência para leitura. Não sei o que foi que aconteceu na escola… me lembro de devorar os livrinhos de história na biblioteca do primário, mas depois peguei horror. Ultimamente tenho lido livros da doutrina espírita (Kardec) e uma leitura que gosto muito é astrologia; não a parte de previsões, não… gosto da parte que fala sobre a personalidade de cada signo. De todas, a única que prendeu minha atenção e li com gosto as quase 500 páginas foi Suzanne White em seu livro A Nova Astrologia, onde ela analisa as personalidades unindo os signos oriental e ocidental, eu por exemplo seria uma áries/porco. Acertou em cheio.

    Quanto a câmera, esta foi uma grande decepção hoje… Pela manhã, sem ter muito o que fazer resolvi criar uma lista de desejos nas Americanas.com de brincadeira com parentes (só produtos “caréeeerrimos”). Passeiando por aqui e ali vi essa câmera a nem 500 reais e mostrei ao Luiz (meu marido). Na hora mesmo ele disse que a esse preço ele compraria “sem medo”. Vc calcula a minha felicidade, né… Pois… Analizando bem o site em questão, vemos que se tratava de uma máquina usada… (buaaaaaaaaaaaaaa). Uma novinha em folha custa quase 2000 reais. Sem chance nos próximos 3 anos… :cry:

    Comentado em 21.Mai.2006

  9. Kicca

    Ops…
    “Analizando bem o site em questão, vemos que se tratava”(…) *vimos*

    Comentado em 21.Mai.2006

  10. tina oiticica

    Eu tenho alguns autores totais: Twain, Poe, Pessoa, Nelson Rodrigues, Trotsky.

    Jacques Derrida explicou bem este lance quando lhe perguntaram se tinha lid todos os livros de sua biblioteca:

    – Não li todos. Alguns li várias vêzes.

    Comentado em 28.Mai.2006

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