Não acho que uma das características imprescindíveis para ser considerado gaúcho (ou brasileiro ou panamenho) seja se atrelar ao folclore local. Creio que toda nova geração deva absorver o que está à sua volta, em seu dia-a-dia, seja nacional, seja internacional, seja música, cinema, TV, literatura. Tudo deve ser ingerido e vomitado, para daí, desta mistura toda, se escolher o que realmente presta.
Devemos praticar a antropofagia, como foi dito naquela semana dos anos 20 que, bem ou mal, ainda são os dias mais modernos pelos quais já passamos aqui nestes trópicos conservadores.
Por isso, concordo com quem diz que o rock nacional precisa morrer, considero Ramilonga, do Vitor Ramil, o único disco de música gaúcha possível e afirmo que Júpiter Maçã é o único músico gaúcho original.
Seus quatro discos passam por bossa nova, drogas, psicodelia, Beatles, Swinging London, tropicália e São Paulo (pois todo porto-alegrense é apaixonado por São Paulo, em maior ou menor grau, mesmo que não assuma isso – todo porto-alegrense odeia a província).
(isso mesmo: condição sine qua non pra ser considerado porto-alegrense é chamar o estado de província e achar que a única cidade minimamente civilizada no Brasil é cortada pelo Rio Tietê)
Já deveria ter ficado claro, mas vou dizer com todas as letras que não sou patriota. Acho idiotice ficarmos atrelados às tradições gaúchas que, no fundo, nada mais é do que uma invenção recente do Paixão Côrtes e seus asseclas no Julinho. Acho bonito um mundo como o de Blade Runner, onde todos os povos estão em todos os lugares e a cultura do mundo é quase uma só, pelo menos nos grandes centros urbanos.
O Júpiter é isso: um cidadão do mundo. As influências que ele absorveu durante a carreira fazem com que surjam híbridos como Bridges Of Redemption Park, uma bossa nova com letra em inglês e referência a um parque de Porto Alegre.
Mais do que os tradicionalistas de fim-de-semana, Júpiter Maçã é o verdadeiro estandarte da cultura gaúcha.
Pena que, conforme podemos conferir na entrevista em três partes abaixo, a vida que ele levou tenha o deixado um tanto quanto afetado.
Afetado demais, eu diria.
Ainda assim, um grande músico gaúcho.
O único possível.

Um comentário Comentários e trackbacks estão fechados no momento.
Júpiter é como o momento em que tudo vai explodir paralizado, dando possibilidades para o futuro, e chupando todo o passado sem desejo de se mostrar como tal. Do caralho, boa lembrança bicho!
2 trackbacks
[...] This post was mentioned on Twitter by Doni, Piteco. Piteco said: oloco o @grandeabobora curte jupiter maça que rapaz de alto garbo e elgancia http://tinyurl.com/26pzyem [...]
[...] A Grande Abobora Skip to content SobreContatoAnuncieDireitos e PrivacidadeMelhores Posts ← Júpiter Maçã [...]