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Inteligência e cultura

Borges pode até não ter sido feiz, mas era um homem muito inteligente. E muito culto. Ouvir pessoas inteligentes falarem é muito bom. Acompanhar o raciocínio de alguém e partilhar com ele a chegada a algum lugar é algo. Ouvir uma pessoa culta falar sobre algum assunto que ele domina é absorver conhecimento. É aprender. É como ter um software P2P que compartilha conhecimento.

Se bem que há correntes filosóficas que acham que a inteligência per se não existe. A grosso modo, nós humanos temos um imenso banco de dados com uma forma de acesso muito rápida que nos permite reconhecer padrões e a partir deles concluir coisas. Seja um músico criando uma nova melodia, um economista tentando prever o comportamento futuro do mercado de ações ou um matemático demonstrando um teorema. Nenhum deles é inteligente. Eles apenas reconhecem padrões e tentam aplicar seus conhecimentos e experiência à uma nova situação. Aliás, isto é bem comum em matemática. Se eu tenho um problema cuja solução não conheço, a minha primeira tentativa é reduzir o problema a algo que eu conheça e resolvê-lo assim, para depois retornar ao problema original. Por exemplo, a teoria das equações diferenciais lineares só foi totalmente desenvolvida depois que o problema foi enxergado como uma simples exponenciação de matrizes via teorema de Taylor.

Mas Borges era inteligente e culto. Ele sabia transformar idéias simples como a da biblioteca total e a do homem que nada esquecia em histórias geniais. Na verdade as histórias dele sempre orbitavam em torno dos mesmos temas. Labirintos, infinito, tigres, espelhos, livros. Na obra de Borges o papel do homem é secundário, ao contrário dos seus antecessores realistas (Dostoievski, Machado de Assis, Eça de Queirós, Flaubert) ou seus contemporâneos (Joyce, Mann, Fitzgerald). E à exceção de poucas histórias, a grande maioria se passava no pampa argentino. Borges era cosmopolita – apesar de ser argentino descendente de portugueses, foi educado na Suíça e o inglês foi sua primeira língua – mas encontrou-se nos campos argentinos e riograndenses.

O pampa é uma região que eu não conheço. Sempre tive preconceito em relação à região, pois aqui na cidade só nos mostram o CTG, a tchê music e a revolução farroupilha. Mas numa certa época meu interesse nesta região despertou, devido ao Continente, Ramilonga e Borges. E as viagens que eu fiz até Pelotas, com aquela paisagem monótona, plana, repetiva me fizeram entender um pouco mais do que é a milonga – a música dos pampas por excelência. Me parecia uma região onde a conversa e as relações entre as pessoas pareciam mais importantes que o resto.

Jorge Luis BorgesCerta vez vi um programa na TV em que o entrevistador perguntou qual com personalidade morta as pessoas gostariam de passar um dia. Houve quem respondesse Elis Regina, Chacrinha e até Albert Einstein. Eu me perguntei: o que pode ter de interessante a conversa com um físico? E alemão ainda por cima? Eu pensei em Borges. Passar um dia coversando, tomando café e visitando bibliotecas e livrarias na Buenos Aires do século XX seria uma experiência única. Se bem que todas as experiências são únicas: é impossível passarmos duas vezes pela mesma coisa. Ou a nova situação não é idêntica à original ou nós não somos mais os mesmos.

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  • Institucional

    A Grande Abóbora, o blog do Marcus.

    Uma explosão de sabor.

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