Já tem uns pares de anos que eu ouvi Dejarlas Partir e pensei num conto. Bastou ouvir a parte da letra que diz el suicida y su gato irreal que minha imaginação disparou.
Pensei num homem que queria se suicidar. Ele chegava na sala da sua casa e pendurava uma corda no lustre. Quando ele ia colocar a cabeça na corda, aparece um gato. Um gato roxo, gordo e listrado, como na versão feita pela Disney para Alice no País das Maravilhas. Aliás, Alice é o melhor desenho animado feito pelos Estúdios Disney em todos os tempos. E tem o musical mais engraçado de todos os tempos, aquele da cena em que o Chapeleiro Maluco tenta consertar o relógio do Coelho Branco. Mas voltemos.
Então eu pensei neste conto. O gato aparece pro cara dizendo pra ele não se matar. Aí os dois começam a conversar (o cara não tem certeza se o gato é real ou ilusão). Joaquin (Roaquin, porque o gato é espanhol) é cristão ortodoxo e acha que não vale a pena se suicidar, pois o mundo é lindo e os suicidas são condenados ao sétimo círculo do inferno por toda a eternidade. Já o cara (ele não tem nome) é niilista e ateu. Ele não vê mais sentido em viver no mundo como ele é e por isso decide se matar. E nisso a história se desenrola, com o gato expondo as idéias dele e com o cara rebatendo as idéias do gato.
Eu nunca pensei num final pra história. Eu acho que se o cara se mata, isso acaba mostrando que que a desesperança vence de alguma forma, mesmo se um gato roxo listrado aparecer na tua frente te pedindo pra não te matar. Mas se o gato vencer, isso mostra que um cristão babaca e xarope pode acabar te convencendo a aturar o mundo por mais tempo do que o necessário, pois na real ninguém sabe se há algo além da vida. Muito menos um gato roxo cristão, babaca e xarope.
Eu também pensei que esta história já deve ter sido escrita. Ou pelo menos pensada. Também pensei que se eu fui capaz de pensá-la, outros fãs do Fito também foram. E talvez alguém tenha pensado a mesma história que eu, com o mesmo gato roxo, o mesmo cara, a mesma sala, a mesma corda. E talvez o próprio Fito tenha pensado a mesma história. E talvez, nesta sucessão de hipóteses, eu tenha me tornado um tipo de Pierre Menard, que ao tentar traduzir alguns capítulos de Dom Quixote para o francês durante o século XX, reescreveu-os letra por letra, exatamente como Cervantes (um homem moderno do século XVI) os havia escrito no século XVI. Menard, um homem do século XX, tornou-se um homem do século XVI. Do contrério, não teria escrito a história como ele escreveu. Logo, Menard tornou-se Cervantes durante a execução daqueles fragmentos. E eu me tornei algum outro fã do Fito durante algum tempo. Ou o próprio Fito.
Como Borges dizia, um homem é toda a humanidade. E durante algum tempo eu fui toda a parcela de humanidade que pensou a mesma história que eu. Inclusive, caso esta história já exista, eu fui seu autor. E talvez o destino do homem seja este mesmo. (Tentar) Viver a vida de todos os outros homens durante a sua. Ou como Borges, (tentar) ler a vida de todos os outros homens durante a sua. Ler mais do que viver, como ele fez.
Ou enforcar-se na sala.
He cometido el peor pecado que uno puede cometer. No he sido feliz.
Jorge Luis Borges

