Mestre Zhuangzi certa vez sonhou ser uma borboleta que esvoaçava livre pelo ar, muito feliz consigo mesma. De repente acordou e viu-se o Mestre Zhuangzi sólido, em carne e osso. Só que ao despertar, ficou na dúvida se era o Mestre Zhuangzi que sonhara ser uma borboleta, ou uma borboleta sonhando ser Mestre Zhuangzi.
Esta historinha simples talvez seja um dos exemplos mais antigos de história fantástica. Aliás, vários dos livros que tenho tratam disto, de histórias fantásticas.
Falando em livros, estou pra comentar sobre um livro há um tempão, mas nunca havia me sentado pra escrever. Eu já namorava esta obra nas livrarias dos aeroportos pelos quais passei; não a comprei por falta de verba (aliás, é excelente o texto Como eu queria ser pobre por um dia - Porque todos os dias é fogo). Então no fim do ano passado a adquiri e não tenho um pingo de arrependimento.
Contos Fantásticos do Século XIX Escolhidos por Ítalo Calvino, é uma obra literária excelente. É uma reunião de histórias sobrenaturais, onde sobrenatural não é a presença de fantasmas, e sim os acontecimentos que aparentemente não possuem uma explicação racional (muito embora a tenham).
No prefácio do livro há uma interessante passagem a respeito da diferença entre fantástico e maravilhoso:
Tzevetav Todorov, em sua Introduction à la littérature fantastique (1970), afirma que aquilo que distingue o “fantástico” narrativo é precisamente uma perplexidade diante de um fato inacreditável, uma hesitação entre uma explicação racional e realista e o acatamento do sobrenatural. Entretando, a personagem do incrédulo positivista que aparece freqüentemente neste tipo de narrativa, vista com piedade e sarcasmo porque deve render-se ao que não sabe explicar, nunca é contestada em profundidade. De acordo com Todorov, o fato extraordinário que o conto narra deve deixar sempre uma possibilidade de explicação racional, ainda que seja a da alucinação ou do sonho (boa tampa para todas as panelas).
Já o “maravilhoso”, também conforme Todorov, se distingue do “fantástico” na medida em que se pressupõe a aceitação do inverossímel e do inexplicável, tal como ocorre nas fábulas das Mil e uma noites. (Distinção que se aplica à terminologia literária francesa, em que o fantastique quase sempre se refere a elementos macabros, como aparições de fantasmas do além. Já o uso italiano associa mais livremente “fantástico” a “fantasia”; de fato, falamos de “fantástico ariostiano” quando, segundo a terminologia francesa, deveríamos dizer “o maravilhoso ariostiano”).
Sem que eu me desse conta, minhas preferências literárias caminharam para o lado do fantástico. Edgar Alan Poe (que está presente na narrrativa), Franz Kafka, H.P. Lovecraft, Jorge Luis Borges e Stephen King são todos grandes autores do gênero. O que é O Iluminado senão uma grande novela fantástica? Jack Torrance realmente foi possuído pelos demônios do Hotel ou apenas sofreu um surto psicótico?
Esta é o grande trunfo do (realismo) fantástico: a dúvida que fica no leitor. É real? É sonho? É o quê afinal? É por isso, pelos questionamentos e sobretudo pela perplexidade que me abate, que eu leio este gênero.


J.
belo post. se queres ler uma boa obra de realismo mágico aocnselho-te, apesar de talvez já teres ouvido falar e/ou teres lido, a obra prima do Gabriel garcia marquez, Cem Anos De Solidão. Se não a conehces, penso que não te irás decerto arrepender. É uma das obras primas do mundo literário, sem sombra de dúvidas.
Comentado em 16.Mar.2006
marcus
Acabaste citar outra deficiência minha: à exceção de Borges, li pouco os latino-americanos fantásticos. Garcia Marquez, Julio Cortázar, Isabel Allende, Italo Calvino (que é latino, porém não americano).
Comentado em 16.Mar.2006
Rubens
Ainda não li, mas com certeza está na minha lista de espera…
De Poe e King já li muito, sou fã de carteirinha…
Tb curto muito o gênero fantástico. (Mas curto mais ainda a ficção científica…)
Comentado em 16.Mar.2006
Gian
O Garcia Marquez é um gênio… o melhor escritor latino-americano n minha opinião.
Qto a esse livro aí… quase o comprei uma vez. Acabou q quem comprou foi minha ex-namorada e eu pretendia ler o exemplar dela. Bueno… agora me resta comprá-lo algum dia.
Comentado em 16.Mar.2006