Bem, não é bem isso que vocês estão pensando. O que eu queria era um retrato como o de Dorian Gray pra mim. Não um retrato dele, mas um retrato com as mesmas características daquele da obra máxima de Oscar Wilde. Mas eu sei que nem todo mundo leu a obra e não deve ter a menor idéia do que estou falando. Por isso, só continue a ler se já conhece a história ou não se importa com spoilers.

Primeira edição d’O Retrato de Dorian Gray
Na história, Basil Hallward, impressionado pela beleza física de Dorian Gray, pinta seu retrato. No estúdio do artista, Dorian conhece Lord Henry Wotton, que o apresenta à vida hedonista que leva e à sua visão distorcida do mundo. Seduzido pela busca da beleza e do prazer, Dorian torna-se uma pessoa amoral. A mais amoral de todas. Segundo o próprio Dorian diz,
Eu irei ficando velho, feio, horrível. Mas este retrato se conservará eternamente jovem. Nele, nunca serei mais idoso do que neste dia de junho… Se fosse o contrário! Se eu pudesse ser sempre moço, se o quadro envelhecesse!… Por isso, por esse milagre eu daria tudo! Sim, não há no mundo o que eu não estivesse pronto a dar em troca. Daria até a alma!
E é o que ocorre. Apesar da vida desregrada, Dorian não sofre seus efeitos. Apesar das maldades que comete, elas não se refletem em seu corpo. Apesar de tudo, ele mantém o rosto e o corpo jovens, como se para ele o tempo não passasse. Quem sofre os castigos da vida é seu retrato, como ele desejou.
Não é que eu esteja mal para ter que desejar isto. Meu corpo até vale alguma coisa. Meu cardiologista também acha isso. Mas seria bom poder desobedecer algumas regras: dormir menos, comer mais, beber mais, ser mau e não sofrer as conseqüências na pele. Ser imortal. Ser jovem para sempre.
Mas seria bom se manter jovem o maior tempo possível. Sentir menos dores, tanto físicas como da alma. Seria muito bom viver mais tempo com saúde e ingenuidade.
Mas nossos erros e nossos excessos fazem o relógio correr mais rápido. Eles fazem com que envelheçamos antes do que poderíamos envelhecer, antes que estivéssemos preparados.
Claro que ter algo que nos eximisse a culpa teria um efeito péssimo sobre nós: como crianças sem punição, seríamos cada vez piores, cada vez mais mesquinhos, egoístas e maus.
Mas Lord Henry sempre dizia:
É melhor ser belo do que ser bom. Mas é melhor ser bom do que ser feio.
Eu quero continuar belo e jovem pelo maior tempo possível, mas as pequenas maldades diárias vão, pouco a pouco, me impedindo.
Por isso eu queria ser amaldiçoado com um retrato como o de Dorian Gray. Pois assim como ele, eu não tenho sido uma pessoa melhor e…
A partir de hoje desistirei de tudo isso e serei apenas bom. É mais difícil (são tantas tentações!), mas creio que no final seja mais recompensador.
Para mim e para os outros.

trixie
não vou dizer que é a melhor coisa do mundo - às vezes as pessoas não sabem reconhecer, torna-se um pouco frustrante. não percebem seu esforço. e assim como se tem problemas por ser rude ou grosso, aceitar coisas demais também pode trazer a falta de limites, e vão começar a se aproveitar de você. eu sei bem disso, fui tolerante demais minha vida toda e paguei o preço. mas compensa, claro, desde que na medida certa. qual foi a motivação pra mudança?
eu tento o meu melhor. a idéia de fazer mal a alguém me desespera, apesar de ser inevitável em algumas situações estranhas. ultimamente, como disse, tenho tido remorsos até ao matar besouros, o que é uma completa estupidez.
Comentado em 19.Nov.2007
trixie
ah: que bonito o folhetim. quem dera ter uns desses. ou ter lido dorian gray assim.
Comentado em 19.Nov.2007
Ariett
Eu não queria que fosse verdade esse lance de ser melhor ser belo. Mas é, né?
Comentado em 19.Nov.2007
tina oiticica harris
Marcus:
Para mim você é uma pessoa boa, íntegra, amiga.
Beleza não põe a mesa mas abre o apetite. Burrice tira o apetite de qualquer jeito, para mim.
Gosto muito do Oscar Wilde. Só vim aqui porque o post era sobre o romance melor que ele escreveu. Um favorito.
Comentado em 19.Nov.2007
marcus
Infelizmente é, Ariett. São poucos os casos em que os bons são melhor tratados que os belos.
Comentado em 20.Nov.2007
Yanco
“O Retrato de Dorian Gray” é uma obra-prima de um grande gênio da literatura inglesa e universal. A beleza é um dom incomparável, mas, infelizmente, como o próprio autor constata, dura muito pouco. Quanto à bondade, bem, “todo bonzinho é coitadinho”, não ? A beleza não precisa ser descrita, ela salta aos olhos. A bondade precisa ser provada em atos. Uma pessoa não é o que ela diz, mas o que ela faz, assim como qualquer bom personagem no cinema. Wilde era um artista completo e muito culto, foi um ótimo aluno numa das mais prestigiadas universidades do mundo. Mais que romancista, uma vez que “Dorian Gray” é seu único romance, era também um grande dramaturgo e poeta. Este seu romance singular continua tão atual nos dias de hoje como antes foi na sociedade hipócrita e moralista da Inglaterra de então (sociedade vitoriana), uma vez que hoje em dia se valoriza a busca da juventude eterna (e portanto, utópica) como nunca antes foi feito. Infeliz de quem parecer velho ou velha neste admirável mundo novo de agora ! Precisa ter uma estrutura psicológica muito firme para aguentar ser rejeitado e olhado com desdém, às vezes maltratado mesmo, a menos que seja rico ou rica, já que também se valoriza mais o TER do que o SER. Eu não penso assim, mas a maioria pensa, não é ? Li “O Retrato de Dorian Gray” pela primeira vez quando tinha mais ou menos 7 anos de idade. Foi o primeiro clássico da Literatura Universal que li. E apaixonei-me pelo livro, tanto que tenho dele várias versões e traduções. E vez por outra volto a ele. Como nos está fazendo falta Oscar Wilde nos dias que correm ! O seu senso crítico era apuradíssimo, e não por acaso incomodou a muita gente. Mas era também dotado de um humor muito peculiar, sarcástico, porém, inteligente. Afinal, ele era súdito britânico. Nascido na Irlanda, Dublim. Chega ! Toda a obra literária de Wilde é como bom vinho, quanto mais o tempo passa mais saborosa fica. E para aqueles e aquelas que ainda não viram, recomendo assistir ao filme “Wilde - O Primeiro Homem Moderno”, com Stephen Frears. Ele práticamente encarna espíritamente a Wilde. Um grande ator, não por acaso, também britânico.
Comentado em 8.Dez.2007