Os filmes com o personagem Josefel Zanatas (doravante Zé do Caixão) sempre foram, para mim, como os discos do Radiohead pós-OK Computer: muito melhores na teoria do que na prática. Sempre tive muita expectativa a respeito e a decepção sempre ocorria. E foi assim, com os dois pés atrás, que decidi assistir Encarnação do Demônio.

Filmes de terror, em geral, apelam para o sobrenatural. Ateu convicto, Zé do Caixão não crê em nada. Aliás, crê em apenas uma coisa: o que nos liberta é o desapego à vida. Já que não existe nada após a morte, não há porque ter preocupações morais ou amores desnecessários. Só o sangue é eterno.
O que é a moral humana senão uma prisão de crenças vazias e mentiras?
Mais do que um filme de terror, Encarnação do Demônio é a afirmação da filosofia de Zé do Caixão. Se os filmes de zumbis do Romero são uma crítica à sociedade humana, uma grande metáfora da nossa habilidade em nos auto-destruir, o encerramento da trilogia do coveiro criado e vivido por José Mojica Marins nos joga na cara o super-homem de Nietzsche levado às últimas consequências.
A dor e a tortura, enquanto caminhos para a liberdade, são bastante exploradas no filme. Diversas cenas exploram isto, mas ao contrário de filmes que se utilizam deste expediente apenas para chocar o espectador, Encarnação do Demônio faz isto para que melhor compreendamos Zé do Caixão e suas motivações. Nas cenas fortes, sempre vemos a reação do coveiro a elas, nos indicando que ele gosta do que vê. Mais do que um sádico, ele acredita estar fazendo o bem a quem as sofre.
Não bastassem todos estes simbolismos, ainda há Jece Valadão no papel de policial machão usando tapa-olho, cego devido ao próprio Zé do Caixão. Notem que este é um estereótipo nível 4.5 na escala MN de estereótipos, que chega até o nível 5.

Não fossem um ou outro probleminha na edição, como cortes muito abruptos, o filme teria levado nota máxima.
Cotação: ★★★★☆
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