Deuses por engano

7.Nov.2008 @ 2:35 pm
Arquivado em Nerd!

Tem uma banda brasileira (infelizmente extinta) que gosto muito, chamada Violins. No seu penúltimo álbum, Tribunal Surdo, há uma canção chamada O Piloto Russo na Aldeia Suskir. Esta música conta a história de um piloto ateu que, ao cair de pára-quedas em uma aldeia hindu, é tratado como uma divindade.

Título este que ele tenta renegar, mas o povo da tribo não deixa. (Indiana Jones e o Templo da Perdição alguém?)

Acho esta história ótima. Que povo aclamaria alguém como deus só por ele ter caído do céu? É de se espantar que hajam povos assim, que tomam um personagem aleatório, que mal e mal demonstrou um sinal mínimo de algo que, remotamente, pode ser confundido com algo divino, e saem adorando-o.

Acreditem: há várias episódios assim na história. Neste post, apresentarei três deles.

Hernán Cortés

Hernán Cortés />

Hernán Cortés foi o homem que iniciou a conquista da américa espanhola. Diversos dos povos que lá habitavam foram conquistados e catequizados graças a este espanhol.

Quezalcoatl é um deus asteca. É o deus que representa a vida, a abundância da vegetação, o alimento físico e espiritual para o povo que o cultua. Assim como diversos povos antigos, os maias possuíam uma versão antropomórfica de seus deuses. No caso de Quezalcoatl, ele era um homem branco, de olhos claros e barba.

Não é preciso ser um gênio para deduzir o que aconteceu. Cortés iniciou a exploração do interior do México em fevereiro de 1509. Em novembro do mesmo ano, ele foi levado pacificamente, por homens astecas, à presença de Moctezuma II (ou Montezuma II), o imperador. A razão disto foi ele ter sido confundido, pelo embaixador asteca enviado ao lugar de desembarque espanhol, com Quezalcoatl, deus que diversos sinais “claros”, observados a partir de profecias, indicavam a chegada.

A partir daí, os astecas foram introduzidos ao cristianismo. Aceitaram Jeová e Jesus. Relatos contam que Moctezuma fazia um belo esforço para entender os rituais cristãos. Ele aceitava quase todos, exceto a eucaristia. Para o líder de um povo que oferecia sangue humano como sacrifício para seus deuses, era muito estranho alguém comer da carne e beber do sangue de seu próprio deus.

Hailé Selassié I

Haile Selassie I

Nascido Tafari Makonnen e posteriormente conhecido como Ras Tafari, Hailé Selassié foi regente da Etiópia entre 1916 e 1930 e seu imperador de 1930 a 1974. Segundo os maconheiros rastafaris, este homem é a representação do deus encarnado. Mas mesmo assim, muitos de seus contemporâneos, além de diversos historiadores, o consideram a razão principal da falha Etiópia em se modernizar adequadamente.

A razão por ele ter sido considerado como o novo messias foi simples. Hailé carregava o título de Sua Majestade Imperial, Imperador Hailé Selassié, Eleito de Deus, Rei dos Reis, Senhor dos Senhores, Leão Conquistador da Tribo de Judá, além de ser descendente do Rei Salomão e da Rainha de Sabá. Os maconheiros rastafaris acharam ainda umas semelhanças entre a vida do cara e o Apocalipse bíblico e voilá! temos um novo salvador.

Hailé Selassié nunca negou (nem aceitou, é verdade) sua origem divina. Mas também nunca tirou proveito desta situação. Chegou inclusive a doar terras no centro da Etiópia para que famílias de maconheiros rastafaris lá fizessem seu lar.

Príncipe Philip, Duque de Edimburgo

Príncipe Philip, Duque de Edimburgo

Conforme eu já contei aqui, algumas tribos de aborígenes confundiram, na época da Segunda Guerra Mundial, os pilotos de aviões com deuses. O Príncipe Philip, ao chegar em Vanuatu, foi confundido com o irmão de John Vrum, o tal deus que veio do céu e cuja história citei en passant em meu post anterior.

Como sempre, não foi o tal falso deus que se auto-proclamou uma divindade: a culpa, como sempre, foi da população do local. Neste caso, os habitantes de Vanuatu tinham uma lenda a respeito de um homem branco que viria de uma terra distante, casado com uma mulher poderosa. Como Philip era casado com a Rainha Elizabeth II e os soldados que estavam na ilha prestavam reverências à rainha, os nativos logo concluíram que Philip era o deus que esperavam.

Obviamente, o Príncipe nunca aceitou tal honraria. Mas, persuadido pelo embaixador inglês em Vanuatu, mandou uma foto sua autografada para a adoração dos nativos, que prontamente responderam com um presente.

Em 2007, o Channel 4 levou cinco praticantes deste culto bizarro à Inglaterra, para um encontro com sua divindade. Lá eles receberam outra foto do Príncipe e voltaram felizes para sua terra.


Exemplos históricos de casos onde um povo ignorante, iludido por demonstrações de algum tipo de poder ou aparência que eles não compreendem, existem aos montes. Eu não me surpreenderia se algo assim, em moldes parecidos, tivesse ocorrido em alguma região desértica, sob jugo romano, uns dois milênios atrás, e até hoje fosse motivo de adoração em alguns lugares da Terra.

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8 Comentários

  1. Jock

    Uau, adorei seu blog, Marcus!
    Já assinei o rss.

    abraço

    Comentado em 7.Nov.2008

  2. André HP

    Nossa… Eu estou escrevendo um post parecido. Mas não nesse lance de ‘deuses’.

    Comentado em 7.Nov.2008

  3. Philipe DuLac

    Repita Quetzalcóatl 3 vezes bem rápido, sem enrolar a língua.

    Comentado em 7.Nov.2008

  4. Fer Funchal

    eu sou fãzoca do príncipe Philip desde o filme “A Rainha”, quando ele foi meu personagem favorito do ano no cinema.

    (comentário inútil #1)

    Comentado em 7.Nov.2008

  5. marcelinotherocker

    O homem sempre criando seus deuses…mas quem realmente precisa deles?!? Eu já “criei”o meu,porém sempre me pego questionando se realmente necessito dele ou é uma imposição da sociedade em que vivo!!

    Comentado em 7.Nov.2008

  6. Nayara

    uhahauhau adoro citar esse caso do John Vrum e ver a cara de cu que os cristãos em geral fazem.

    É hilário citar aquela declaração de um dos adoradores do tal Vrum dizendo para um repórter que se as pessoas esperam um tal de Jesus a 2000 anos, porque raios eles não podem esperar o Vrum há 30 anos? uhauhauh Ilhéus WINS!

    Comentado em 7.Nov.2008

  7. Inagaki

    Diga-se de passagem, viajei até Brasília só pra assistir o último show do Violins.

    Comentado em 7.Nov.2008

  8. Kazuya-kun

    Interessante que o Ras Tafari não usa cabelo como tal.

    Comentado em 7.Nov.2008

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