Clube de Leitura - A Loteria em Babilônia

20.Set.2007 @ 3:40 pm
Arquivado em Literatura
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Posto hoje (um pouco atrasado, pois foi combinado que o clube de leitura organizado pelo Idelber começaria na segunda-feira) meus comentários a respeito de A Loteria em Babilônia, conto de Jorge Luis Borges presente no livro Ficções, um dos 5 melhores livros de todos os tempos.

O herege que ainda não o leu o conto pode se redimir deste pecado se auto-flagelando com um cilício durante 15 dias acessando os links com as versões do conto em português ou em espanhol.

O conto é narrado por alguém que desconhecemos. Apenas sabemos que ele viveu em Babilônia durante um tempo. Foi pro-cônsul e escravo. Através das suas observações, ele nos descreve as características da loteria. No início, como todo sorteio, o vencedor recebia uma boa ventura: moedas de prata. Ao povo não interessou tais procedimentos, pois eles “não se dirigiam a todas as faculdades do homem: unicamente à sua esperança”. Certa vez, alguém propôs que a Companhia, a administradora da loteria, colocasse números adversos entre os favoráveis. Ou seja, o sorteado poderia ganhar as moedas de prata ou ser condenado a pagar uma multa.

A partir deste momento, os babilônicos entregaram-se ao jogo. “O que não adquiria sortes era considerado um pusilânime, um apoucado”. Gostando ou não do jogo, a pressão social fazia o babilônico participar da loteria. Depois disso, a participação tornou-se obrigatória: querendo ou não, a pessoa estava participando dos sorteios.

A esta altura, já posso levantar minha tese: a Companhia é Deus. Para confirmar isto, note o trecho

Às vezes, um fato apenas — o vil assassinato de C, a apoteose misteriosa de B — era a solução genial de trinta ou quarenta sorteios. Combinar as jogadas era difícil; mas convém lembrar que os indivíduos da Companhia eram (e são) todo-poderosos e astutos.

Combinar resultados de maneira que depois de trinta ou quarenta sorteios o resultado desejado seja alcançado é uma tarefa difícil. Vejam o caso do lançamento de moedas. Ao lançarmos uma moeda uma vez, há duas possibilidades de resultado: cara ou coroa. Ao lançarmos uma moeda duas vezes, temos quatro resultados possíveis: cara-cara, cara-coroa, coroa-cara e coroa-coroa. Se lançássemos uma moeda quarenta vezes, seriam 1.099.511.627.776 (mais de um trilhão) resultados possíveis. É humanamente impossível controlar todas estas variáveis simultaneamente.

Guardada a citação acima, lembremos a segunda nota que Borges escreveu para o ensaio O Espelho dos Enigmas, do livro Outras Inquisições:

O que é uma inteligência infinita?, poderá indagar o leitor. Não há teólogo que não a defina; eu prefiro um exemplo. Os passos dados por um homem, desde o dia de seu nascimento até o de sua morte, desenham no tempo uma inconcebível figura. A Inteligência Divina intui esta figura imediatamente, como a dos homens um triângulo. Essa figura (talvez) tem uma função determinada na economia do universo.

Deus, para as três principais religiões monoteístas, é onipresente, onipotente e omnisciente. Ele está em todo lugar, pode fazer qualquer coisa e sabe tudo. Se sabe tudo, ele pode muito bem saber qual é a figura dos passos dados por um homem durante sua vida. Ou saber qual os resultados que a loteria deve ter em cada sorteia para que, depois de trinta ou quarenta, determinado fato ocorra.

Para confirmar o que digo, há outro trecho interessante. O narrador afirma sobre a loteria: “Esse funcionamento silencioso, comparável ao de Deus, provoca toda espécie de conjecturas”. Ele não é apenas comparável ao de Deus. O adjetivo comparável está presente na frase apenas para despistar o leito menos avisado. O funcionamento da loteria é o próprio Deus. E sem jogar dados, pois Ele sempre soube, em sua infinita inteligência, quais são os resultados da loteria.

No universo, tudo já está definido, desde sempre. Há, até para o menor dos eventos, uma razão de ser.


Esta análise não é definitiva, pois a complexidade do conto e minha incapacidade me impedem disso. Para outros pontos de vista, leia outras opiniões a respeito deste conto.

Andre
Biajoni
Hermenauta
Donizetti
Milton Ribeiro
Ulisses

9 Comentários

  1. Carla

    Boa iniciativa, essa.

    Clube da Leitura em blogs…

    E ainda falam em morte da literatura!

    Eu incentivo é a morte de citações conforme ABNT.
    Pra quê, se fica tão inteligível assim?

    :P

    Comentado em 20.Set.2007

  2. Pato

    Este conto é uma das coisas mais geniais que li. E possivelmente continuará sendo assim.

    Comentado em 21.Set.2007

  3. Pato

    A maioria dos contos do Borges me lembra funções recursivas. Entenda como quiser.

    Comentado em 21.Set.2007

  4. Bender

    Nesse conto só há duas possibilidades. Ou se admite que o cara era bem esperto ou ele era muito confuso. O Biajoni ficou com a segunda alternativa. Eu com a primeira.

    Comentado em 21.Set.2007

  5. marcus

    Eu fico com a primeira opção, Bender. Para mim, ele era algum tipo de sacerdote que conhecia muito bem os meandros da Companhia (Deus), de maneira que conseguia explicar seu funcionamento sem entregar (pelo menos não diretamente) quem a Companhia realmente era.

    Comentado em 21.Set.2007

  6. John Santos

    Hello, stranger.

    Comentado em 22.Set.2007

  7. marcus

    Very well.

    Comentado em 22.Set.2007

  8. A frase que revela o livro | A Grande Abobora

    [...] 1É, não canso de relê-lo. Mas desta vez é por outra causa. Deve entrar no ar hoje ou amanhã mais um post do Clube de Leitura. [...]

    Comentado em 3.Out.2007

  9. Clube da Leitura - Emma Zunz - Jorge Luis Borges | A Grande Abobora

    [...] o Idelber Avelar, neste post. Recapitulando, a análise anterior havia sido feita em cima do conto Loteria em Babilônia, também do Borges. Quem ainda não o leu, pode lê-lo em português [...]

    Comentado em 3.Out.2007

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