Este post é uma resenha do conto Emma Zunz, de Jorge Luis Borges. Novamente, quem propôs a obra foi o Idelber Avelar, neste post. Recapitulando, a análise anterior havia sido feita em cima do conto Loteria em Babilônia, também do Borges. Quem ainda não o leu, pode lê-lo em português ou espanhol. É pequeno: na minha versão impressa são apenas cinco páginas. Aliás, para aproveitar meu post na sua plenitude, é recomendável que o conto seja lido anteriormente.
Em uma primeira leitura, Emma Zunz é uma história sobre vingança. Ao matar Loewenthal, Emma, para quem “a morte de seu pai era a única coisa que havia acontecido no mundo, e continuaria acontecendo sem fim”, finalmente pôde se ver livre do segredo que a atormentava há seis anos. Loewenthal, ao contrário, talvez tenha morrido antes de saber porque ela o havia matado.
Emma Zunz é escrito para que realmente pareça uma história de vingança (eu insisto neste ponto: para que pareça uma história sobre vingança). À maneira dos grandes detetives (Sherlock Holmes, Auguste Dupin, Hercule Poirot), ela também tem um crime com o qual lidar. Mas enquanto os primeiros precisam dele cometido para desvendá-lo, para desconstruir o resultado e chegar à gênese criada pela mente do assassino, Emma precisa pensar em todos os detalhes antes de cometer o seu assassinato. Ela precisa que ele seja perfeito, que não suscite dúvidas a respeito de sua inocência.
A chave para desvendar o conto é dada pelo último parágrafo:
A história era incrível, de fato, mas se impôs a todos, porque substancialmente era certa. Verdadeiro era o tom de Emma Zunz, verdadeiro o pudor, verdadeiro o ódio. Verdadeiro também era o ultraje que havia padecido; só eram falsas as circunstâncias, a hora e um ou dois nomes próprios.
Ou seja, o conto é uma grande fábula sobre a verdade. Não importa se a história de Emma é verdadeira: se ela assim o parece, assim o é. Não há como se duvidar da garota que não se interessava por garotos: se ela realmente fez sexo naquele dia, ele deve ter sido forçado. Ele parece forçado, ele foi forçado.
O paralelo entre a moça trabalhadora e casta e o empresário avarento e viúvo nos leva a torcer por Emma. Nos leva a ver somente o lado dela da história. Em nenhum momento tivemos provas que Loewenthal tenha realmente cometido o desfalque. Talvez por inveja, já que Loewenthal parecia ser tão bom funcionário, a ponto de tornar-se sócio da tecelagem, Emanuel Zunz tenha inventado esta história, só para que as atenções saíssem de cima dele, o verdadeiro autor do crime.
Emma tinha treze anos quando soube do terrível segredo de seu pai. Nesta idade, uma menina sem mãe (“recordou (tratou de recordar) sua mãe”) só tem o pai no mundo, ainda mais sendo judia e vivendo em 1916.
O conto nos leva por um caminho, para no final nos deixar perguntando: Loewenthal realmente incriminou Emanuel Zunz? Emma realmente estava certa ao atirar em Loewenthal? O que parece verdadeiro é realmente verdadeiro? Ou melhor: a explicação mais simples, mais óbvia, é sempre a mais correta?
No caso de Emma não. No caso de Emma, ambas as situações, a da garota estuprada pelo chefe que reage matando-o e a da garota que bola um crime mirabolante para vingar a morte do pai, são absurdas e inverossímeis. A polícia então fica com a menos complexa, com a menos paradoxal, a menos ilógica.
No caso de Emma, a navalha de Occam falhou.

3 comentários Comentários e trackbacks estão fechados no momento.
Marcus:
É um pouco cedo para que me involva em leitura de Borges. Voltarei pois o início do post promete.
Sei quee disse que não ligava para layout. Entretanto, a navegação do blogroll escondido me chutou pra fora do blog.
Bom dia!
Não é bem assim, Tina. Uma prova de que ninguém repara no Blogroll é que já tirei ele há mais de três semanas e tu foste a primeira a reparar.
Além disso, ontem mesmo te linkei da maneira mais eficiente que existe: dentro de um post.
Cara, acho que realmente concordamos na leitura do conto. Eu tb tive a impressão de um grande hoax.