Este post é uma resenha do conto Emma Zunz, de Jorge Luis Borges. Novamente, quem propôs a obra foi o Idelber Avelar, neste post. Recapitulando, a análise anterior havia sido feita em cima do conto Loteria em Babilônia, também do Borges. Quem ainda não o leu, pode lê-lo em português ou espanhol. É pequeno: na minha versão impressa são apenas cinco páginas. Aliás, para aproveitar meu post na sua plenitude, é recomendável que o conto seja lido anteriormente.
O Noronha, que ultimamente tem recebido vários links por aqui, me convidou para mais um meme. O ritual deste é bem simples: pegar um livro ao acaso, abri-lo na página 61, postar no blog a primeira frase completa desta página e repassar para cinco pessoas.
O livro mais próximo a mim, neste momento, já que estou na universidade, é Statistics for Long-Memory Pocesses, do Jan Beran. A frase que atende aos requisitos acima é
In particular, the usual definition of the spectral density of Xt would lead to a nonintegrable function [see (2.27) below].
Hum… meio sem graça. Queria algo mais literário, até porque esta deve ser a idéia original do meme. Por isso, vou pegar o livro de literatura mais próximo de mim e tirar uma frase dele também. Este livro é Obras Completas I, de Jorge Luis Borges1. Lá vai:
O leito seco nu já sem um fio de água
e uma lua perdida no frio da alvorada,
e o campo morto de fome, pobre como uma aranha.
Esta é a primeira estrofe do poema O General Quiroga vai de Coche para a Morte, do livro Lua Defronte. Este livro de poesias (o segundo da carreira de Borges) foi publicado em 1925, após a volta de sua família a Buenos Aires, depois de uma temporada de alguns anos na Europa.
Devo repassar este meme a cinco blogueiros. Indicarei três: se outros dois quiserem responder, façam seus posts que os linkarei por aqui.
Assim, convido Gabriela, Paulo e Tina.
1É, não canso de relê-lo. Mas desta vez é por outra causa. Deve entrar no ar hoje ou amanhã mais um post do Clube de Leitura.
Posto hoje (um pouco atrasado, pois foi combinado que o clube de leitura organizado pelo Idelber começaria na segunda-feira) meus comentários a respeito de A Loteria em Babilônia, conto de Jorge Luis Borges presente no livro Ficções, um dos 5 melhores livros de todos os tempos.
O herege que ainda não o leu o conto pode se redimir deste pecado se auto-flagelando com um cilício durante 15 dias acessando os links com as versões do conto em português ou em espanhol.
O conto é narrado por alguém que desconhecemos. Apenas sabemos que ele viveu em Babilônia durante um tempo. Foi pro-cônsul e escravo. Através das suas observações, ele nos descreve as características da loteria. No início, como todo sorteio, o vencedor recebia uma boa ventura: moedas de prata. Ao povo não interessou tais procedimentos, pois eles “não se dirigiam a todas as faculdades do homem: unicamente à sua esperança”. Certa vez, alguém propôs que a Companhia, a administradora da loteria, colocasse números adversos entre os favoráveis. Ou seja, o sorteado poderia ganhar as moedas de prata ou ser condenado a pagar uma multa.
A partir deste momento, os babilônicos entregaram-se ao jogo. “O que não adquiria sortes era considerado um pusilânime, um apoucado”. Gostando ou não do jogo, a pressão social fazia o babilônico participar da loteria. Depois disso, a participação tornou-se obrigatória: querendo ou não, a pessoa estava participando dos sorteios.
A esta altura, já posso levantar minha tese: a Companhia é Deus. Para confirmar isto, note o trecho
Às vezes, um fato apenas — o vil assassinato de C, a apoteose misteriosa de B — era a solução genial de trinta ou quarenta sorteios. Combinar as jogadas era difícil; mas convém lembrar que os indivíduos da Companhia eram (e são) todo-poderosos e astutos.
Combinar resultados de maneira que depois de trinta ou quarenta sorteios o resultado desejado seja alcançado é uma tarefa difícil. Vejam o caso do lançamento de moedas. Ao lançarmos uma moeda uma vez, há duas possibilidades de resultado: cara ou coroa. Ao lançarmos uma moeda duas vezes, temos quatro resultados possíveis: cara-cara, cara-coroa, coroa-cara e coroa-coroa. Se lançássemos uma moeda quarenta vezes, seriam 1.099.511.627.776 (mais de um trilhão) resultados possíveis. É humanamente impossível controlar todas estas variáveis simultaneamente.
Guardada a citação acima, lembremos a segunda nota que Borges escreveu para o ensaio O Espelho dos Enigmas, do livro Outras Inquisições:
O que é uma inteligência infinita?, poderá indagar o leitor. Não há teólogo que não a defina; eu prefiro um exemplo. Os passos dados por um homem, desde o dia de seu nascimento até o de sua morte, desenham no tempo uma inconcebível figura. A Inteligência Divina intui esta figura imediatamente, como a dos homens um triângulo. Essa figura (talvez) tem uma função determinada na economia do universo.
Deus, para as três principais religiões monoteístas, é onipresente, onipotente e omnisciente. Ele está em todo lugar, pode fazer qualquer coisa e sabe tudo. Se sabe tudo, ele pode muito bem saber qual é a figura dos passos dados por um homem durante sua vida. Ou saber qual os resultados que a loteria deve ter em cada sorteia para que, depois de trinta ou quarenta, determinado fato ocorra.
Para confirmar o que digo, há outro trecho interessante. O narrador afirma sobre a loteria: “Esse funcionamento silencioso, comparável ao de Deus, provoca toda espécie de conjecturas”. Ele não é apenas comparável ao de Deus. O adjetivo comparável está presente na frase apenas para despistar o leito menos avisado. O funcionamento da loteria é o próprio Deus. E sem jogar dados, pois Ele sempre soube, em sua infinita inteligência, quais são os resultados da loteria.
No universo, tudo já está definido, desde sempre. Há, até para o menor dos eventos, uma razão de ser.
Esta análise não é definitiva, pois a complexidade do conto e minha incapacidade me impedem disso. Para outros pontos de vista, leia outras opiniões a respeito deste conto.



