Então eu tinha este amigo no curso de Matemática. O nome dele é Fabrício. Eu digo que tinha porque ele traiu o movimento e decidiu se formar Engenheiro de Produção e não Matemático.
Um dia conversávamos sobre a vida, o universo e das dificuldades do nosso curso. Uma delas era falar entrega, posto que falávamos muito integra, de integral.
Constatamos que nossas línguas sempre enrolavam para falar tele-entrega. Normalmente saía um tele-integra.
E foi aí que tivemos a brilhante idéia de montar um serviço de integração por telefone. O cliente ligaria e pergunta ria:
- Integral de seno de x, por favor.
- Menos cosseno de x mais constante.
- Obrigado! Vocês salvaram meu dia!
E assim ficaríamos ricos, resolvendo questões matemáticas por telefone.
Mas aí percebemos que já haviam inventado a internet e a Maple, coisas que tornariam nosso serviço inútil.
Um ano, sete meses e um dia após conquistar o título de Bacharel, posso finalmente ser chamado de mestre.
Agora, rumo aos EUA.
Muitos aí não sabem, mas Matemática Aplicada, o curso no qual sou formado hoje, foi o terceiro curso superior que iniciei. O começo de tudo foi a Engenharia de Produção, curso que abandonei graças à uma cadeira quebrada.
Eu sempre gostei da exatas. Sempre gostei de ciência e achava legal fazer continhas na escola. E sempre me disseram que eu era inteligente. E para os meus pais, uma profissão que une ciências exatas e um bom salário é alguma Engenharia. Era isso que eu devia fazer, graças aos motivos acima e porque sempre tive horror ao Direito e à Medicina.
Aí fiz o vestibular, passei em segundo lugar e comecei a estudar Engenharia. Em menos de um ano, já estava com um estágio que pagava bem, cujo trabalho era fácil e me dava condições de cursar a universidade comodamente. Era num laboratório de metrologia (metrologia, e não meteorologia).
Mas depois de seis meses eu já não estava tão feliz. A rotina me incomodava. Eu não tinha muitas opções para criar coisas novas. Era sempre a mesma repetição, todo dia de trabalho. Mas apesar disso eu fazia as coisas direito e era, de certa forma, “promovido”(1).
Passaram-se mais quatro meses e finalmente chegou o dia em que ganhei minha “promoção”.: fui designado para trabalhar em uma máquina de medição tridimensional, o sonho de quatro em cada cinco estagiários daquele laboratório.
Acontece que eu era o estagiário número cinco, o único que não queria trabalhar na máquina.

Eu trabalhava numa máquina parecida com esta
Mas fui né, pois negar trabalho é como assinar um documento dizendo que sou vagabundo(2) e que não dou a mínima para a empresa.
O que na época era verdade.
Trabalhei durante um tempo nela, sem maiores sobressaltos. Ouvia música, mexia nos manches, lia os resultados impressos pelo programa, ou seja, fazia minhas tarefas direitinho.
Até que chegou um instrumento complicado para medir. Um micrômetro de altura. Como estávamos cheios de serviços para entregar e a empresa do micrômetro tinha urgência, fiquei à noite para trabalhar, fazendo hora extra.
Mas o trabalho não rendia. Eu zerei e referenciei a máquina não sei quantas vezes para fazer as medições, mas nunca conseguia sequer chegar perto dos resultados obtidos na medição do ano anterior.
E o prazo para terminar o serviço era no dia seguinte pela manhã.
Quando estava repetindo pela, sei lá, décima vez o procedimento, me irritei e descontei minha raiva chutando uma cadeira de metal.
Ela se quebrou em duas partes, bastante separadas uma da outra.
Aí eu parei, pensei, olhei a cadeira espatifada no chão e concluí que Engenharia não era para mim.
Fui para casa e no outro dia quis me demitir. Como eu era um bom estagiário, fiquei lá por mais oito meses (!), até ser aprovado no vestibular para Licenciatura em Matemática no ano seguinte.
Curso que abandonei no terceiro semestre, mas isto é outra história…
(1)Promoção significava mais trabalho, mais responsabilidades e mesmo salário, o que não é nada atrativo para quem, como eu, estava de saco cheio de lá.
(2)Mesmo que fosse verdade, não era necessário confirmar.

