Acabei de finalizar a leitura de Breve história de quase tudo – Do big-bang ao Homo sapiens. Mais do que um livro de divulgação científica dividido em seis parte principais, que vão de astronomia a biologia, passando por (e não somente) geologia, física de partículas e evolução, é um livro que põe o ser humano em seu devido lugar.
Mas antes de falar do livro propriamente, deixa eu contar uma pequena história. Semana passada fui ao advogado para escanear um documento que eu precisava enviar para os Estados Unidos. O que deveria demorar uns dez minutos acabou virando uma conversa de duas horas sobre, literalmente, a vida, o universo e tudo o mais. Lá pelas tantas ele me perguntou se eu acreditava em vida extraterrestre. Dei-lhe minha resposta-padrão:
-Amigo Advogado(1), esta questão é delicada e eu gostaria de salientar dois pontos. Primeiro: eu não tenho dúvidas da existência de vida fora da Terra; entretanto, vida inteligente é outra coisa. Segundo: custo muito a acreditar que, havendo vida extraterrestre inteligente, ela já tenha feito algum tipo de contato conosco.
Até onde sabemos, a vida é um evento único no universo. Não há provas contundentes de que ela exista exista em algum outro ponto do cosmos (embora algumas atividades químicas presentes em Titã, lua de Saturno, possam indicar a presença de organismos primitivos por lá). Devido ao fato de ser um evento único, só conhecemos um tipo de vida, que é basicamente calcado em carbono, água e que precisa de uma certa zona de temperatura para existir. A grosso modo, não pode existir vida em Vênus porque é muito perto do Sol e não pode existir vida em Marte porque é muito longe(2). A Terra está no lugar exato no espaço que permite o desenvolvimento da vida.
Por isso, se há vida em outro lugar, faz mais sentido que procuremos em planetas que possuam temperatura similar à nossa, com composições químicas semelhantes (novamente, Titã é uma exceção, mas relembra muito a Terra de bilhões de anos atrás). Mesmo que existam formas de vida baseadas em jujubas em outro lugar deste universo velho sem porteira, não sabemos nem por onde começar a procurar. Até hoje, tal planeta similar à Terra, em termos de tamanho e temperatura, ainda não foi localizado.
(um adendo: acho a equação de equação de Drake, que supostamente encontra o número de civilizações da nossa galáxia capazes de de comunicação, tem um erro que considero fundamental. Ela assume um número arbitrário para a fração dos planetas que desenvolvem vida inteligente. No nosso conhecimento atual, só um planeta é capaz de dar suporte à vida – novamente, ressalto, vida conforme nós conhecemos)
A Terra nada mais é do que um pálido ponto azul orbitando uma estrela comum da periferia da Via-Láctea. E ainda que a maioria discorde de mim, o maior feito do universo, até onde sabemos, é o ser humano. Somos o único animal não-imortal (todos os outros animais são imortais pois ignoram a morte). Somos o único animal a ter saído do planeta. Somo o único animal que se questiona. Somos únicos, enfim. São bilhões de anos e acasos felizes que nos trouxeram até aqui.
Aliás, há um acaso feliz que acho interessantíssimo. Numa época remota, a Índia era uma ilha, as Américas do Norte e do Sul estavam separadas e a África possuía florestas úmidas e não savanas secas. O Himalaia, que surgiu do encontro da Índia com a Ásia, mudou o padrão dos ventos no mundo. A América Central mudou o fluxo das correntes no Oceano Atlântico. Estes dois eventos fizeram a vegetação do continente africano se alterar e obrigou um tipo de macaco quadrúpedes de polegar opositor a descer das árvores, se tornar bípede e começar a cultivar tomates.
Este é o clima do livro. Ao narrar a história de quase tudo, Bill Bryson nos oferece estas pequenas e interessantes histórias sobre nosso passado remoto. É uma lição de humildade, nos colocando em nosso devido lugar, como um pequeno acaso, um detalhe na existência do universo. Não somos o fim.
(Outra informação que aprendi no livro: o DNA do cavalo é menos similar ao da zebra se comparado ao do homem e do chimpanzé)
Não obstante, o texto do livro é mais complexo do que um documentário do Discovery, mas menos hermético que um artigo científico é o que considero o tom certo para uma obra de ciência que não visa um público específico. Público este que não é especialista em cada um dos assunto tratados, mas também não tem o nível Mobral da maioria dos terráqueos beócios.
Um último adendo: muitas pessoas diriam que o fato de estarmos justamente na Terra, único lugar possível para existir vida no universo (pelo menos de nosso conhecimento), é uma evidência do divino. Eu penso o contrário. Estamos na Terra justamente por ser um dos poucos lugares em que a vida inteligente deu certo. É justamente o fato de sermos seres vivos e inteligentes que nos faz questionar sobre o porquê de estarmos aqui. A vida, apesar de única, não tem motivo ou razão. É porque é.
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(1)Nome fictício.
(2)Na verdade Vênus é ainda mais quente do que deveria devido ao efeito estufa presente por lá. Atualmente supõe-se que outra razão para Marte não possuir vida nos dias de hoje é sua falta de atividade vulcânica. Entretanto, há microorganismos na terra que não necessitam oxidar carbono (como nós) para gerar energia e acabam fazendo isso com enxofre.
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8 comentários Comentários e trackbacks estão fechados no momento.
Adorei seus comentários e fiquei interessado no livro – adoro tipos de leitura assim: científica e informativa, mas sem parecer pedante. Eu comentei um livro com vc chamado “The Age of Wonder”? Foi considerado o melhor livro de não-ficção do ano passado, e fala de como os cientistas “românticos” do século XVIII e XIX mudaram o mundo. Acho q vc ia gostar.
Ah, e não tira o mérito da Laika, tadinha: ela não é humana e também já saiu da Terra.
Abs!
Eu acredito que haja vida fora da Terra, em alguma galáxia distante e semelhante à nossa, ou à base de outro elemento que não Carbono.
Considero pensar em “vida como a nossa” um erro, já que ela acontece em 1 pentelhonésimo do Universo, até onde sabemos.
Se considerarmos uma civilização avançada, eles teriam tanto interesse na Terra quanto nós em acne de mosquitos. Imagino algo como viajar até a Bahia de ônibus para tomar água barrenta no sertão dos cafundós, não é algo que interesse a alguém.
As distâncias também são proibitivas, imagina a área de uma esfera com 14 bilhões de anos luz de diâmetro e a possibilidade de alguém se encontrar em algum ponto.
Sim Anderson. Tu comentou de Age of Wonder comigo quando almoçamos em Porto Alegre, logo depois que tu comentou das disciplinas que tu tava lecionando neste semestre.
E como fui esquecer da Laika? Teria sido melhor se eu tivesse escrito que somos a única espécie a colocar um ser vivo em órbita.
Se é que o universo é uma esfera, né Noronha. Já li por aí que todo ponto do universo é central: é como andar na superfície da Terra, mas em mais de duas dimensões. Não há princípio nem fim e, quanto mais tu andar numa direção, maior a chance de voltar ao ponto de partida.
Exátero. Eu nem entrei na questão da menor distância, estava pensando apenas em termos de matéria desde o ponto zero, big bang e afins.
Dá para viajar também na questão de vários universos e big bangs, separados por anos-luz de vazio, em todas as direções, incluindo o tempo.
Agora lembrei porque enlouquecia o professor de relatividade I na Unisinos, hehe…
E pra complicar ainda mais, boa parte do que a gente sabe de astronomia são aproximações (pra não dizer chutes). Eu gosto daquela metáfora que diz que um físico é um cego de óculos de sol que, preso num quarto escuro, procura por um gato preto, que ele não tem certeza de que está realmente lá.
Gostei do teu blog! Encontrei aqui nos arquivos o trecho de uma música do Pato Fu, que sempre procurei.
Passa no meu blog, é um diário virtual. http://www.cristiancosta.com
Desculpes os erros, eu tenho dislexia.
Acho que foi o Dawkins quem disse no “Deus, um delírio” que o DNA de diferentes canídeos são menos similares entre si se comparados aos do homem e do chimpanzé.