Será possível representar relações entre n pessoas através de um grafo que possua todas as arestas com o mesmo tamanho?
A ideia para este post surgiu com um twit do @MattSimonato:
Muito meigo nosso quadrado amoroso aí @leitedevaca, @grandeabobora e @eroguro <3 #grandevacabit
Descontando o teor altamente homossexual das palavras acima (e destas e destas também), eu vislumbrei um problema a ser atacado matematicamente.
Achei a expressão quadrado amoroso muito estranha. Já tinha ouvido falar, assim como vocês já devem ter ouvido, em triângulo amoroso. Mas quadrado nunca. Então pensei no seguinte, já descontando a baitolagem da afirmação matheusiana.
Suponha a amizade como uma relação simétrica (isto é, se A é amigo de B, então B é amigo de A). Suponha que a intensidade da amizade que as pessoas sentem seja constante de pessoa para pessoa. Será possível representar estas relações numa figura geométrica tipo um grafo (mas não necessariamente), onde a existência da amizade seja representada por arestas de comprimento constante?
Me pus a resolver este problema. Para o caso em que apenas duas pessoas se relacionam, a solução é trivial, como podemos ver na figura abaixo.

Se A e B se amam, a única maneira de conectá-los é através do único segmento de reta que passa simultaneamente pelos dois pontos. Mas e se adicionarmos mais uma pessoa a este universo, o que ocorre? Bem, o próprio nome deste tipo de configuração, caso falássemos de amor, já dá uma dica a respeito do que obteremos.

Um triângulo amoroso, nas condições que exigi para o problema, é resolvido através de um triângulo equilátero. Mas e se mais uma pessoa aparecer, se apaixonar pelas 3 já existentes (ou, voltando à proposta inicial, contrair amizade) e elas se apaixonarem por ela? Podemos ter um quadrado amoroso?

A resposta é não. Note que, apesar das relações AB, BC, CD e DA possuírem a mesma intensidade (como definido anteriormente, isto significa o mesmo tamanho para os segmentos de reta), AC e BD são claramente maiores. Um cálculo rápido nos indica que, se AB=1, então AC=√2.
Mas haverá outra configuração então, que não seja o quadrado?
Bem, paralelogramos e retângulos estão excluídos, pois não possuem os lados congruentes, em geral. Nos sobra o losango, mas ele também gera um problema.

Mesmo que, por definição de um losango, AB, BC, CD e DA sejam iguais, e façamos com que BD também tenha este mesmo comprimento, a diagonal AC será maior que todos os outros segmentos de reta. Logo, o losango não nos serve.
Por fim, podemos no basear no grafo utilizado para o triângulo amoroso e colocar um ponto nele um ponto D tal que D seja equidistante de A, B e C.

O problema é que este ponto não gera os segmentos de mesmo tamanho exigidos pelo problema. Note que, claramente, AD<AB.
Mas então, da forma que foi proposto, o problema é insolúvel?
Sim e não.
Sim, pois é insolúvel em duas dimensões.
Não, porque o tetraedro consegue satisfazer as exigências que fiz.

Um tetraedro é a figura mais simples que pode ser feita em três dimensões. É composto por quatro triângulos equiláteros, tendo assim as quatro arestas que exigi, todas elas com as mesmas dimensões por construção.
Mas vocês perceberam o padrão aqui?
- 2 pessoas -> Figura em 1 dimensão
- 3 pessoas -> Figura em 2 dimensões
- 4 pessoas -> Figura em 3 dimensões
- 5 pessoas -> Figura em 4 dimensões
QUATRO DIMENSÕES?
Sim, quatro dimensões. E ela se chama pentachoron, nome cuja tradução em português eu desconheço.

Anteriormente eu afirmei que o tetraedro é a figura mais simples a ser construída em três dimensões. Isso não foi por acaso. Estes conjuntos de pontos que exibem estas características são chamados de simplexos. O vídeo abaixo exibe a construção de simplexos da dimensão 0 (um ponto) até a dimensão 10.
O problema para nós, seres tridimensionais, é que figuras com mais de três dimensões são muito difíceis de visualizar. Pensem na seguinte analogia: se vivêssemos em um mundo de duas dimensões (uma folha de papel, por exemplo) e um ser de três dimensões cruzasse nosso espaço, somente veríamos sua projeção em duas dimensões.
Se, por exemplo, vivêssemos numa folha de papel horizontal e uma bola atravessasse esta folha no sentido vertical, primeiro veríamos um ponto, que viraria uma circunferência. Esta circunferência aumentaria de tamanho até atingir um valor máximo, que seria o diâmetro a esfera. Aí, diminuiria seu tamanho, até se tornar um ponto novamente.
Eu mentiria se eu dissesse que vejo o simplexo da quarta dimensão. Eu consigo fazer cálculos em n dimensões (na verdade, trabalho até com espaços vetoriais de dimensão infinita), mas nunca realmente enxergo o que estou fazendo.
Um adendo: compare o verbete simplex da wikipedia em inglês com o verbete simplex da wikipedia em português. A diferença é de chorar.
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12 comentários Comentários e trackbacks estão fechados no momento.
O Matheus nunca me enganou!
Entre diferença e indiferência, há muita pouca indiferência…
Mas claro, com uma explicação dessas, qualquer um entende.
Excelente texto… Parabéns! Realmente poderemos ver agora diversas possibilidades no amor… hehehe
Nossa.. Que nerd.
show de bola!! ;D
Nunca pensei que um twit tão bobo pudesse dar origem a tanto conteúdo.
Muito legal Marcus, excelente texto.
Abraços.
Ps: Carol, minha heterossexualidade é tão latente que não tem como enganar ninguém mesmo.
alas! finalmente um post com conteúdo em muito tempo, marcus. desculpa lá, mas eu considero a maior parte do que você escreve mera bobagem e você sabe bem, e sei que se propõe a isso por muitos motivos.
nas minhas pesquisas claro que preciso fazer esquemas visuais conectando os assuntos estudados, ligações de obras a temas mitológicos e conceitos filosóficos e essa merda toda. a um dado momento, depois de alguns problemas de organização, percebi que a dificuldade residia justamente por me utilizar de diagramas – como raios ia representar relações múltiplas em duas dimensões? é como um mapa, você tem todos os pontos cardinais mas é privado de representar tanto um voo quanto um mergulho. (sim, poderia criar um artifício para isso, mas) veio então a ideia de um projeto de poligrama, como uma grande teia de aranha que toma conta do ambiente. ou como aqueles esqueminhas esculturais de moléculas para as aulas de química.
ah: e você poderia mencionar que a sua analogia das dimensões é bem explicadinha em Flatland, né?
não querendo criticar nem nada, isso de várias dimensões é tenso para a estreita percepção humana, mas pessoalmente acredito que a capacidade de visualizar o que se está fazendo é que garante que realmente se entende aquilo. não sei se você percebe o que quero dizer: se não se consegue traduzir tal conceito numa imagem, é porque ele só lhe foi automatizado, e não incorporado. tomando novamente o exemplo dos mapas – conheço muita gente que sabe lê-los perfeitamente, entendem que ali é direita e aqui é esquerda e como aquele espaço se estrutura no papel, mas se perdem completamente quando se precisa transpô-los para a terceira dimensão. e isso quer dizer que, na realidade, não sacaram a coisa toda, porque não enxergam como um pode se desdobrar no outro.
Ainda que eu seja um grande zero a esquerda para matemática, adoro explicações matemáticas para as coisas e essa tua ta fantástica =D
Aproveitando o gancho, o link pro teu e pro meu Twiiter, ta o Twitter do Hamilton ;D
Valeu o toque. Links corrigidos.
Hey Marcus!
Uma outra maneira de “explicar” como um cubo em 4 dimesões “looks like” é a seguinte: imagine um cubo em 3 dimensões com a propriedade de que quando vc corta uma fatia beeeeeeeem fininha (infinitesimal), ao invés de obter um plano, vc sempre obtém um outro cubo completo, mas sem a propriedade recém mencionada (ou seja, neste cubo, se vc fatiar bem fininho vc realmente obtém um plano).
O blog está muito bom!!! Parabéns!!!
P.S.: achei o máximo o que vc escreveu no Orkut “via” BuddyPoke. Oh coisinha bem besta o BP.
Gostei do texto, porém faço a ressalva, paralelogramos podem sim ter lados congruentes, aliás quadrados e losangos são paralelogramos.
Caracas, é de pirár isso ai!
Muito boa a explicação, eu já havia pensado nisso mas nunca elaborado dessa maneira! Legal mesmo, vai direto para o Twitter ^^
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[...] Filho do Vento, foi o pioneiro no estudo dos grafos. Eu já abordei grafos anteriormente, mas fazendo uma relação entre eles e o amor e não com [...]