A finitude da vida

26.Nov.2007 @ 4:31 am
Arquivado em Cotidiano
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Duas pessoas próximas a mim estão morrendo.

Uma delas é meu avô. Nunca fomos muito próximos(1) e, ultimamente, estamos mais afastados ainda. Mas me deixa muito triste ver não consegue mais tomar banho, se vestir e até mesmo comer sozinho. Pouco a pouco ele vai definhando e ficando mais e mais dependente dos outros. Ou melhor, da minha mãe.

A outra pessoa é a Lilica, cachorrinha de estimação(2) do meu irmão, presente na família há mais de dez anos. Ela é uma dachshund marrom, de pêlo curto. Já está bastante grisalha e com problemas de coluna e locomoção. Nem xixi ela consegue fazer direito. Já estão falando em sacrificá-la para que seu sofrimento seja diminuído.

Lilica
Lilica há dois anos

Mas a Lilica, ao contrário de meu avô, é um animal irracional. Por não falar e não raciocinar, suponho que ela não tem ciência de que seu fim está próximo. Ela não tem um deus, não tem religião e pode passar seus dias simplesmente deitadinha, comendo quando tem fome e dormindo quando tem sono.

Meu avô, pelo contrário, pensa. Pensando, ele talvez perceba que está cada vez mais fraco, cada vez mais dependente da minha mãe.

Segundo ela, de três dias para cá, ele tem passado cada vez mais tempo deitado e tem comido cada vez menos. Tem falado bastante em mim e no meu irmão. Vêm à cabeça dele memórias do tempo em que éramos crianças e passávamos horas com ele e com minha avó já falecida, enquanto minha mãe dava suas aulas.

O que talvez cause mais sofrimento nele sejam justamente as lembranças. Logo elas, que nos trazem os bons momentos vividos, são as responsáveis pelo sofrimento destas horas. Parece que ele sabe que seu fim está próximo e que não há mais muita coisa a se fazer.

Em toda esta situação, eu sofro mais por minha mãe do que por ele. Ela também sabe está em vias de perder o pai e sente muito por isso. Eu sinto por estar prestes a perder o avô e por vê-la sofrer.

Sabe quando tu fica meses sem ver uma criança pequena? E quando tu a encontra de novo ela sabe palavras novas, tem mais histórias pra te contar, conhece mais pessoas e fica cada vez mais coordenada?

No último ano, meu avô sofreu um processo semelhante, mas ao contrário. Se na infância temos uma curva de ascensão muito rápida, na velhice a curva de descenso também é bastante inclinada. É só passar um tempo sem o ver que já se nota que ele não é mais o mesmo de dias atrás.

Pouco a pouco ele foi perdendo a força das pernas e dos braços. Depois, a coordenação foi diminuindo. Agora, já não tem fome e sente muito sono. Ele, que nunca foi de acordar tarde ou passar muitos momentos na cama, hoje passa os dias deitado.

Mesmo com todas as dificuldades desta situação, ele não está tão abatido como eu imaginava. Domingo passei em seu apartamento ele até fez piada, referente ao fato de ganhar gelatina na boca: “O que tu acha de um nenê de 85 anos?”

Por causa desta situação, me pergunto com será melhor morrer. Se de uma vez, de um ataque fulminante ou de um acidente, deixando todos perplexos, ou se assim como ele está, definhando aos poucos, já preparando todos para o pior mas fazendo-nos sofrer por antecipação.

A eternidade é uma qualidade que não temos. Nem os deuses são eternos: eles existem enquanto há adoração. No momento em que são esquecidos, desaparecem.

E mais dia menos dia, meu avô será esquecido. Da parte da minha mãe não, mas meu filho nem chegará a conhecê-lo. Quando meu irmão e eu morrermos, já não restará sobre a Terra alguém que se lembre dele.

E assim será com todos nós.

Vamos então aproveitar o tempo que resta, para poder dar a ele as últimas alegrias a serem aproveitadas. Agora é hora de transformar os momentos que ainda teremos nos melhores que podemos ter. É hora de juntar a todos, de uma fazer companhia ao outro, porque eu vi nos olhos dele que o que ele mais quer é ter todos por perto.

E, afinal, não precisamos muito mais do que isto para sermos felizes.

(1)Na verdade, sou muito próximo a pouca pessoas, um número talvez menor do que o número de dedos de uma mão.

(2)Para mim ela é da família. Ou seja, é uma pessoa.

10 Comentários

  1. Lele

    É triste perder alguém, mas você resumiu muito bem qual deve ser a atitude nos momentos antecedentes…
    “Vamos então aproveitar o tempo que resta, para poder dar a ele as últimas alegrias a serem aproveitadas. Agora é hora de transformar os momentos que ainda teremos nos melhores que podemos ter.”

    Mas, e se a pessoa está bem e vai embora de repente?
    Bem, a minha sugestão é: viva cada momento como se fosse o último. Seja intenso, sincero e presente! SEMPRE!

    bjs e boa semana

    Comentado em 26.Nov.2007

  2. Kicca

    “Por não falar e não raciocinar, suponho que ela não tem ciência de que seu fim está próximo.”

    Você que pensa… Eles não têm o mesmo raciocínio, nem pensam como nós, claro, mas estão muito mais ligados nos acontecimentos que nós…

    Não sei como ragiria vendo minha Crystalzinha começar a se despedir de mim (odeio despedidas), mas ainda não sei até que ponto tenho o direito de encurtar sua vida. Pode ser que a vendo numa situação dessas eu opte pelo sacrifício, mas é um situação na qual eu realmente não consigo me imaginar…

    Quanto ao seu avô, e à cadelinha tb, curta com eles o tempo que resta…

    Acho que damos importância demais ao que não deveríamos… Não sabemos o que nos está esperando na esquina, dentro de 5 minutos. Não sabemos…

    PS.: Sim, estou devagar retomando a rotina de blogs…

    Comentado em 26.Nov.2007

  3. éver

    Cara! Esta atitude do final tem que ser tomada SEMPRE. E não só quando uma pessoa tá indo embora. A gente só dá valor para o que vai perder mesmo! Quando meu avô se foi eu fiquei tranquilo pq sabia que havia aproveitado bastante a companhia dele. E vice-versa.

    Comentado em 26.Nov.2007

  4. marcus

    Lele e éver, eu sei que esta atitude do final deve ser tomada sempre. Mas ainda sim, é sempre bom dar uma reforçada neste tipo de atitude.

    Comentado em 26.Nov.2007

  5. marcus

    Kicca, eu sei que tu gosta de cachorrinhos e tal, mas é óbvio que eles não têm o mesmo raciocínio que nós humanos. Eles não têm raciocínio algum.

    Com certeza, a Lilica não está por dentro do que a espera. Ela provavelmente se sente fraca, sem vontade de fazer as coisas, e nem por isso imagina que vá morrer. Para os animais, não existe morte. Eles não têm esta noção.

    Comentado em 26.Nov.2007

  6. trixie

    nós temos raciocínio, mas os animais têm sensibilidade em troca… o que os faz aptos para perceber não só a proximidade do fim como outras coisas que nos escapam. ela pode não imaginar que vai morrer, pode nem ter idéia de morte, mas com certeza sente.
    no mais, não há muito que dizer… tou meio saturada do assunto, morte tem sido um tema constante. concordo com o éver.

    Comentado em 26.Nov.2007

  7. smurf

    desde q nasci tenho em casa alguns jabutis
    e sempre achei curioso quando eles colocavam ovos no jardim
    no momento exato que os filhotes ia sair dos ovos a mãe se dirigia para o local para ajudar

    não estavam dentro dela …estavam enterrados ….

    tive uma yorshire durante 10 anos ai….ela teve câncer
    ficou super mal não andava ,não comia …
    um belo dia ela andou a casa inteira foi na cozinha ,passou ao lado do sofá e me pediu carinho ,foi no quintal e latiu pros jabutis…
    e de noite ..morreu .

    vai dizer pra mim q ela não se despediu?

    engraçado q todo esse papo me fez lembrar do filme “o tempo q resta” que inclusive é uma frase q vc usou no post

    vou deixar o link pra baixar pelo pando ok
    beijos
    e aos pouco tudo vai se resolvendo …
    http://cultmix.wordpress.com/2007/11/18/le-temps-qui-reste-o-tempo-que-acaba/

    Comentado em 27.Nov.2007

  8. smurf

    no momento exato que os filhotes iam sair dos ovos

    Comentado em 27.Nov.2007

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