A eternidade sob o ponto de vista cristão

2.Jul.2008 @ 9:48 pm
Arquivado em Opinião

Depois daquele post sobre morte, resolvi iniciar uma série de posts aqui no blog versando sobre eternidade, infinito e assuntos relacionados.

Ouroboros
Ouroboros, símbolo da eternidade

Neste primeiro artigo, dissertarei brevemente sobre o conceito cristão de eternidade.

Creio que a maioria dos leitores deste blog são cristãos ou ex-cristãos. Ou pelo menos conhecem por alto as principais histórias da Bíblia. Assim sendo, tem uma idéia vaga do que é a eternidade.

Comecemos, então, pelo início.

Deus, por definição, é eterno. Ele, que criou o céu e a terra, fez a luz, viu que esta era boa e separou-a da escuridão, sempre existiu e sempre existirá.

Mas como assim sempre existiu? Quer dizer que para o catolicismo não há início dos tempos? Claro que há, mas não é a Bíblia que explica isto.

O melhor documento a respeito da eternidade cristã é o décimo primeiro livro das Confissões de Santo Agostinho. Para quem não sabe, Santo Agostinho é um dos maiores teólogos já existentes, rivalizando com São Tomás de Aquino em importância para o catolicismo.

Em sua obra, Santo Agostinho simplesmente ignora o problema do início da eternidade, mas assinala um fato importante que pode permitir uma solução: os elementos de passado e de futuro que há em todo presente. Sendo Deus omnisciente, passado e futuro são, para ele, a mesma coisa1. O tempo não existe para o divino. Ou seja, os homens sentem o tempo passar, mas para Deus, tudo ocorre simultaneamente.

Desta forma, há sim o início dos tempos para o catolicismo. Na verdade, há o início dos tempos para o homem. O tempo começou a ser contado quando Deus fez tudo aquilo que é narrado no início do Gênesis; antes disso, não havia tempo.

E o tempo acabará?

Não. Chegará o Juízo Final e Deus julgará todas as pessoas. As boas irão para o Paraíso e as más para o Inferno. E lá ficarão para sempre.

Em resumo, a eternidade cristã é simples: antes de Deus criar o mundo não existia o tempo e não acabará após o Juízo Final, o arrebatamento das almas dos seres humanos para junto de Deus (ou Lúcifer).

Em breve, a eternidade sob a ótica de Platão.

1Acreditar em um Deus omnisciente e em livre arbítrio, simultaneamente, é impossível. Outra hora eu explico porque. Mas se tu quiser uma opinião abalizada a respeito, leia o post Deus onisciente versus livre-abrítrio, da Ana.

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8 Comentários

  1. Tiago

    A onipotência divina e a onisciência não podem existir simultaneamente por motivo análogo ao do livre arbítrio, saber tudo é determinismo absoluto, poder tudo é liberdade total, idéias opostas.

    Comentado em 2.Jul.2008

  2. trixie

    eu só queria que as pessoas em geral parassem de pensar em Deus como um velhinho barbudo, sentado em seu trono, olhando tudo o que acontece e mandando um raiozinho aqui e ali. convenhamos, ainda há muito preconceito contra Deus.

    marcus, primeiro de tudo: você me conhece, sabe que não sou cristã, não fui nem de criança. minha mãe me dizia para rezar aos anjinhos no céu quando tivesse medo, eu achava aquilo estúpido e comparava secreta e confusamente a bíblia aos meus queridos contos de fadas, que me ensinaram mais sobre a vida do que anos em colégio católico. sim, fui cristã um breve período de minha adolescência, quando tinha 13 ou 14, e logo desencanei - hoje vejo que não sabia absolutamente nada sobre o assunto, apesar de conhecer montes de historinhas bíblicas.
    segundo, bonito ouroboros. já dizia Hermes Trismegisto na Tábua de Esmeralda: o que está embaixo é como o que está em cima e o que está em cima é como o que está embaixo; por tais coisas se fazem os milagres de uma coisa só. assim como todas as coisas são e procedem do Uno, pela mediação do Uno, assim todas as coisas nasceram desta coisa única, por adaptação.
    é alquimia, e mesmo assim assustadoramente parecido com o pensamento cristão. a menção do Uno imediatamente remete a Plotino, e de como a Igreja abandonou seu conceito de Universo ex nihilo para tomar emprestado sua noção de Deus “inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas”, pegando uma frase espírita que por acaso se encaixa nisso tudo. e aí, como já escrevi também, podemos ir até a escolástica medieval (que em parte se baseia em neoplatonismo, do qual Plotino é considerado papai, Santo Agostinho, e o anagogicus mos de Pseudo-Dionísio Areopagita), e achar muitíssimas semelhanças entre tudo o que é dito; pra então pensar numa contrapartida física até meio estúpida.
    o tempo é relativo, disso todo mundo sabe. se ele passa de maneiras diferentes no Universo, logo, não é a lógica terrestre e nem a própria noção de tempo que pode determinar uma Grande Lei Geral. nem a matéria é fixa, vira energia, poooortanto admitamos que é possível quebrar esta barreira espácio-temporal: só não sabemos como. e se ela for quebrada, não serão passado, presente e futuro o mesmo? a passagem das horas é consequência da organização atual das coisas neste pontinho ridículo do espaço, regida por essa lei maior… ou Deus, como queiram.
    terceiro. muito fácil vir negando a omnisciência e a omnipotência de maneira tão óbvia, sendo que filósofos discutiram o assunto durante séculos. não teriam eles já percebido a contradição? talvez esses dois conceitos se estendam mais além do que nos acostumaram e não sejam tão antagônicos assim. a grande questão nessa briga toda é o Mal; se Deus é omnisciente, saberia de tudo e com sua omnipotência poderia impedi-lo. mas. Santo Agostinho mesmo dizia que as coisas aparentemente contrárias às divinas eram como a escuridão - a ausência de luz, mas mesmo a escuridão possui alguma luz. Pseudo-Dionísio (de novo ele): “toda criatura, visível ou invisível, é uma luz cuja existência se deve ao Pai das Luzes… que procura seu lugar segundo sua gravidade específica… e logo, sob domínio da razão, sou levado através de todas as coisas até a causa de todas as coisas, que as dota de lugar e ordem, de número, espécie e gênero, de bondade, beleza e essência, e de outros dons e qualidades”. para a escolástica “só em Deus há coincidência de ação e pensamento”. Deus é omnisciente porque ele, em si, é a causa de todas as coisas serem possíveis, e é omnipotente justamente pela sua organização não falhar, considerando o que disseram nossos amigos ali em cima. o livre arbítrio entra na parte em que nossos sentidos são limitados. se somos impedidos de enxergar como todos os eventos se inter-relacionam, como o Uno se faz presente em tudo, então somos independentes para achar o que quisermos, andar meio às cegas e optar por este ou aquele caminho, tendo a nossa própria noção do que é melhor, mesmo que esta não corresponda ao que é melhor de fato. omnisciência é sim o contrário de livre arbítrio, mas a omnisciência de Deus é a causa da nossa liberdade, ainda que sujeita a ele. ou não? explica o seu porquê outra hora que não formulei isso muito bem.
    adiantando um pouquinho de Platão… a eternidade pra ele é diretamente vinculada ao mundo das idéias, do qual este aqui é só uma mera decadêcia. e acho que é praticamente a mesma coisa (também porque estivemos falando sobre neoplatonismo)! se o mundo terreno é a tradução da luz divina, uma mera aplicação do ideal, então este ideal deveria existir além dos conceitos de tempo. na eternidade, todas as possibilidades já se esgotaram, e Platão também frisa a limitação dos sentidos humanos como determinante da sujeição ao tempo.
    quarto - o fim do mundo. sou extremamente desconfiada dessa história de Céu e Inferno. que um dia virá o apocalipse não tenho dúvidas (os maias previram para 2012, atentem), mas sem aquele teatro de selos e cavaleiros e trombetas, vai ser só uma mudança estrutual cabulosa. talvez sobrevivamos, talvez não, dependendo do que fizermos para chegar lá. pode ser que nosso apocalipse seja o domínio científico absoluto (o dia em que nos libertaremos do mundo físico…), o que poderia significar ser comparado a Deus, ou estar no Céu. pode ser que tenhamos interpretado tudo errado, estamos fazendo cagada atrás de cagada e um dia o Uno-verso se voltará para nós com toda a sua ira de estrutura abalada.

    e depois de escrever tudo o que me vem na mente é: porra, sei lá o que rola com a eternidade.

    Comentado em 3.Jul.2008

  3. trixie

    ah, desculpa. férias = comentários gigantes.

    Comentado em 3.Jul.2008

  4. Deus onisciente versus livre-abrítrio | Olhômetro

    [...] truta Marcus, do Grande Abóbora, que me perdoe, mas vou me antecipar a ele e explicar por que diabos um Deus onisciente é um conceito que se opõe ao livre-arbítrio (ele questiona isso no fim do post). Apesar de ser um pouco óbvio pra quem já parou pra pensar, [...]

    Comentado em 3.Jul.2008

  5. Victor Skinkiller

    Não foi apagado, só não foi aprovado…

    Combustão.org

    Comentado em 3.Jul.2008

  6. Motta

    Acho que um dos grandes problemas da otica cristã não é nem ela em si, mas como as pessoas fantasiam o que acontece na eternidade. Teoricamente um crsitão deveria acreditar que ao morrer (ou à chegada do juizo final) ele se tornaria um com deus (ou não. pior para quem não) e não teria mais a noção de tempo e espaço.

    E isso seria muito massa! soh que como é dificil explicar pras pessoas que isso seria bom, foi criada umaimagem de paraiso baseada nas coisas boas da terra: praias, sol, natureza… Mas quem estuda mesmo sobre o assunto sabe que não é nada disso… O problema das metáforas é que se não tiver ninguém apra explica-las, com o tempo as pessoas tomam o significado literal delas e acaba fudendo tudo.

    To esperando pra ver essa tua ideia de onisciencia x livre arbítrio…

    Comentado em 4.Jul.2008

  7. Rafael

    O ouroboros representa mais que isso, também.

    Representa o tal do deus interior de cada um, ou melhor, de como os deuses, na verdade, são nossos pensamentos em outro plano, daí a alegoria de morder a calda. Ou algo assim.

    Comentado em 6.Jul.2008

  8. Samuel

    Bem… sobre eternidade, temos de ser sinceros que todo e qualquer comentário não passa simplesmente de um simples comentário. Eternidade é algo que acreditam que exista mas ninguém tem certeza se existe de fato. Alguém conheçe alguém que é eterno ??? alguém que acompanhou a eternidade para saber se ela existe ??? Deus já surgiu no céu e falou ao mundo, e o mundo todo ouviu da boca de Deus que ele é eterno ??? Todos querem dar voz a Deus, mas Deus mesmo nunca se apresentou e disse o que é a eternidade. Comentários sobre a eternidade são só comentários e nada mais. Só mais uma opnião sem o mínimo de provas. A única certeza que temos nesta vida é a morte. Tudo mais não passa de afirmações em provas. A eternidade é uma delas.

    Comentado em 18.Jul.2008

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