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Ensaio sobre o autor

O disco amarelo iluminou-se. A partir da semana retrasada entendi o porquê das vírgulas em excesso, dos parágrafos enormes, da pontuação excêntrica, das frases intermináveis. Entendi também o frisson daqueles que o saudaram em 1998. Saramago é um gênio, talvez o maior escritor em língua portuguesa em todos os tempos, até maior do que Camões, Pessoa, Drummond, que devo reconhecer, no me agradam tanto quanto deveriam pois são poetas, escritores menores na minha opinião, menores porque a poesia é menor que a prosa, mas ainda assim os melhores dentre os da sua língua; talvez maior até que Machado de Assis, que adoro, que Eça de Queiroz, que acho chato, maior que Guimarães Rosa, que não conheço; quem sabe é apenas uma sensação de deslumbramento, mas é um deslumbramento que não sentia desde o primeiro contato com as Ficções (assim, Ficções maiúsculas por serem o nome do livro e por serem ficções maiúsculas, como Borges é um Escritor maiúsculo). Aliás, noto entre estes dois uma diferença básica: enquanto Borges é milonga (rigor, profundidade, clareza, concisão, pureza, leveza, melancolia), ele é fado (nostalgia, saudade, dolência, mágoa, prolixo). Mas ainda assim pergunto-me: por que tanto tempo sem conhecê-lo? O Ensaio Sobre a Cegueira é o primeiro livro de Saramago que li e dizem que não é o melhor. Meu Deus! O que um sujeito ateu deve então esperar d’O Evangelho Segundo Jesus Cristo? O Ensaio… trata da história de uma cidade que vai ficando cega aos poucos. Fica cega uma pessoa aqui, outra acolá, mais uma logo adiante, sem distinção de sexo, classe social, instrução, cor da pele; vai aumentando a legião de cegos conforme o tempo vai passando. E então o governo, com todo seu tato e toda sua perspicácia, decide internar todos os cegos em um manicômio desativado, para que lá fiquem com seus iguais. Conforme a população de cegos vai aumentando, o leitor vai vendo que a menos da visão, eles são iguais aos seres humanos (não que tenham deixado de ser seres humanos; pelo menos não no início do romance) em suas características principais: desejo, desorganização, desilusão, desespero, destruição. Mas, poderia o leitor perguntar, o romance é um conto sobre faltas, falta de visão, falta de organização, falta de , falta de esperança, não e sim caro leitor, como assim?, é um romance para abrir os olhos dos que enxergam, abrir os olhos?, sim, abrir os olhos, mostrar que apesar de cegos, e apesar de teoricamente incapacitados, o espírito humano mantém sua característica individual, seja ela boa ou má, então é um livro sobre o mal?, não, é acima de tudo, sobre a esperança, é “uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”. E se somos essa coisa, resta a nós aprender a lidar com essa coisa que somos, antes que seja tarde demais e fiquemos todos cegos, apesar do mundo estar ali e ficar ali para sempre, a despeito da nossa (in)existência.

11 comentários.

11 comentários Comentários e trackbacks estão fechados no momento.

  1. éver, 4/4/06
    1

    “menores porque a poesia é menor que a prosa”
    Abre teus olhos e pára de falar merda! Tás passando dos limites, meo!
    Vô te cagá a pau!

  2. Gian, 4/4/06
    2

    Aê eu tenho q concordar com o marcus, éver.
    Pelo menos na minha opinião a poesia é menor q a prosa.
    Pq??!!! Ora, pq eu gosto mto mais de prosa do q de poesia.

    By the way… ainda não li saramago… assim como ainda não li uma porrada de autores q um dia (qdo tiver tempo) lerei.

  3. marcus, 4/4/06
    3

    É menor. O que eu posso fazer? Não há poeta que seja mais importante que Kafka, Borges, Dostoievski, Saramago, Machado de Assis, Thomas Mann, Charles Dickens, Neil Gaiman, Frank Miller, Alan Moore, Stephen King, Gogol, Calvino, Poe, Lovecraft, Verissimo, Verissimo de novo, Douglas Adams, Tolstoi, Bram Stoker, Herman Melville ou Goethe, quando eles não se meteram a ser poetas.

  4. éver, 4/4/06
    4

    Vô “cagar-lhes os dois” a pau !

  5. Gian, 4/4/06
    5

    Hora de discordar do marcus:

    Pablo Neruda, Fernando Pessoa, Dante Alighieri, Thomaz Antônio Gonzaga, Mário Quintata e tantos outros têm tanta importância quanto qualquer um dos que tu citaste.

  6. Gian, 4/4/06
    6

    Lembrei do maldito inglês q eu tava tentando lembrar o nome e não conseguia:

    William Blake. Some-se aos demais supracitados.

  7. marcus, 4/4/06
    7

    Discordo.

  8. Anonymous, 4/4/06
    8

    Cara, se tu gostou de Ensaio sobre a Cegueira, te aconselho a ler Sobre Heróis e Tumbas do Ernesto Sabato, principlamente o capítulo Relatório Sobre Cegos…

  9. Vini, 4/4/06
    9

    Esqueci de assinar

  10. J., 4/4/06
    10

    tanto a poesia quanto a prosa são géneros diferentes da arte escrita. enquanto praticante da arte, posso dizer, usando a lógica, que a poesia é maior que a pros ano que toca ao nível conceptual e artístico do acto de escrever. porque, se escrever é desenhar o que se pensa em caracteres específicos, ao invés de falar, enquanto que a prosa é a simples formulação desses caracteres, a poesia pega na mensagem que procura transmitir e fá-lo do ponto de vista artísitico, esotérico, mais complexo porque comunica da mesma forma quea prosa, mas pela forma como é feita, permite comunicar muito mais, e dizer muito mais, escrevendo até muito menos.
    a nível sociológico há uma inversão: a prosa é simplesmente mais importante que a poesia, já que a rapidez e facilidade de entendimento de uma mensagem na nossa era contemporânea exige a rapidez de transmissão. obviamente, tudo é muito mais profundo do que isto, e as minhas ideias serão até discutíveis; mas não dou mais importância a uma do qe à outra. gosto das duas.
    em relação ao evangelho…era muito melhor antes do codigoda vinci. agora pensas, haaaaaa isto está tão batido. mas quando saiu, nao estava.
    ainda bem que gostaste.

  11. Rubens, 4/4/06
    11

    Também nunca li Saramago, mas um dia ainda lerei…

    Agora, tenho que entrar nos times dos discordantes de sua afirmação com relação à prosa e poesia. Não acho que a poesia seja menor… grandes poetas escreveram grandes obras, que falam, com menos palavras e mais profundidade, o que alguns gastam palavras demais para dizer, conforme os exemplos citados pelo Gian…

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