20 anos sem Drummond

17.Aug.2007 @ 12:01 am
Arquivado em Cotidiano

Copy-and-paste básico, só para os 20 anos da morte de Carlos Drummond de Andrade não passarem em branco.

José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

8 Comentários

  1. tina oiticica harris

    Puxa vida, Marcus. Este poema, que deve haver em audio file na Biblioteca do Congresso Nacional, era declamado nas escolas.
    A sacada do último verso pega a gente de surpresa.

    Bom dia, passou da meia-noite.:razz:

    Comentado em 17.Aug.2007

  2. marcus

    É meu poema favorito dele.

    A propósito Tina, já pensou em como responder ao meme que te convidei?

    Comentado em 17.Aug.2007

  3. trixie

    isso me lembra que ontem invadi uma festa da alta sociedade no museu afro-brasileiro, no ibirapuera, com a ilustre presença do presidente da república de benin (na áfrica, parvos), e o josé serra, depois de um discurso muuuito comovente, apertou a mão de todos - menos a minha e de meu colega, só porque estávamos de mochila, jeans e sujos dos pés à cabeça com pó de pedra sabão da aula de excurtura.
    mas os (mil) acarajés (que engoli) tavam uma coisa louca!

    o tempo ainda é de fezes, maus poemas, alucinações e espera.

    Comentado em 17.Aug.2007

  4. smurf

    trixie vc nem me convidou pra festa !!!
    eu tb gosto muito desse poema
    “sem parede nua
    para se encostar”

    Comentado em 17.Aug.2007

  5. Gabriela

    Clássico! :D

    Comentado em 17.Aug.2007

  6. trixie

    desculpa, smurf! é que foi tudo meio de última hora, senão óbvio que teria te chamado. um colega meu de classe me avisou à tarde, umas 4h antes… e eu nem sabia se ia até o último momento, 8 da noite eu ainda tava jogando sinuca perto da faculdade. mas não pude resistir a uma exposição afro-brasileira com encontro diplomático entre o serra e um presidente da áfrica (havia até cantores, que inclusive batiam de longe os do meu instituto) e comida e bebida de graça.

    a única coisa ruim é toda aquela gente da alta classe.
    nós éramos a marginália, como diz alguém que conheço.

    Comentado em 18.Aug.2007

  7. smurf

    eu bem gosto da marginália!
    ela é filha do martinho da vila né?
    uahuahuahuahuahua

    Comentado em 18.Aug.2007

  8. trixie

    ela mesma.
    a marginália. o bafón. a criminalidade.

    Comentado em 19.Aug.2007

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