Copy-and-paste básico, só para os 20 anos da morte de Carlos Drummond de Andrade não passarem em branco.
José
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

tina oiticica harris
Puxa vida, Marcus. Este poema, que deve haver em audio file na Biblioteca do Congresso Nacional, era declamado nas escolas.
A sacada do último verso pega a gente de surpresa.
Bom dia, passou da meia-noite.:razz:
Comentado em 17.Aug.2007
marcus
É meu poema favorito dele.
A propósito Tina, já pensou em como responder ao meme que te convidei?
Comentado em 17.Aug.2007
trixie
isso me lembra que ontem invadi uma festa da alta sociedade no museu afro-brasileiro, no ibirapuera, com a ilustre presença do presidente da república de benin (na áfrica, parvos), e o josé serra, depois de um discurso muuuito comovente, apertou a mão de todos - menos a minha e de meu colega, só porque estávamos de mochila, jeans e sujos dos pés à cabeça com pó de pedra sabão da aula de excurtura.
mas os (mil) acarajés (que engoli) tavam uma coisa louca!
o tempo ainda é de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
Comentado em 17.Aug.2007
smurf
trixie vc nem me convidou pra festa !!!
eu tb gosto muito desse poema
“sem parede nua
para se encostar”
Comentado em 17.Aug.2007
Gabriela
Clássico! :D
Comentado em 17.Aug.2007
trixie
desculpa, smurf! é que foi tudo meio de última hora, senão óbvio que teria te chamado. um colega meu de classe me avisou à tarde, umas 4h antes… e eu nem sabia se ia até o último momento, 8 da noite eu ainda tava jogando sinuca perto da faculdade. mas não pude resistir a uma exposição afro-brasileira com encontro diplomático entre o serra e um presidente da áfrica (havia até cantores, que inclusive batiam de longe os do meu instituto) e comida e bebida de graça.
a única coisa ruim é toda aquela gente da alta classe.
nós éramos a marginália, como diz alguém que conheço.
Comentado em 18.Aug.2007
smurf
eu bem gosto da marginália!
ela é filha do martinho da vila né?
uahuahuahuahuahua
Comentado em 18.Aug.2007
trixie
ela mesma.
a marginália. o bafón. a criminalidade.
Comentado em 19.Aug.2007